Com a Palavra

A nossa SBPRP irá sediar o Encontro Internacional de Bion em 2018. Visando nos preparar para este evento, faremos um Pré-Congresso que acontecerá de 29 de setembro a 1 de outubro de 2017. O tema deste Pré-Congresso inaugura um novo momento na Psicanálise brasileira, pois pela primeira vez um encontro de Bion irá se dedicar à "Memória do futuro", desde que ela foi traduzida no Brasil por Paulo Cesar Sandler. Até o momento, não havia sido tema de um Congresso. Teremos como conferencistas três analistas que apreenderam com profundidade e criatividade a trilogia “Memória do futuro”, última obra escrita de Bion, legada a nós por sua genialidade.

Paulo Sandler (Brasil), Leandro Stitzman (Argentina) e Annie Reiner (EUA), analistas talentosos, singulares e criativos foram convidados a conversarem entre si e a nos apresentarem suas reflexões sobre "o que faz um psicanalista". Um dos vértices norteadores das conferências e conversas será "o infinito", uma das formulações que Bion concebeu para sustentar a expansão do seu pensamento e do universo da psicanálise. O pensamento de Bion está em profunda sintonia com a complexidade, as contradições e as polaridades que são próprias à busca da existência humana em nossos tempos. Por essa razão, o público desse nosso encontro, além dos psicanalistas, também inclui profissionais de todas as áreas, estudantes e pessoas interessadas e apaixonadas pelas diferentes expressões do existir na cultura humana.

É um evento que oferecerá oportunidades para um diálogo aberto com os conferencistas e para compartilharmos está visão tão instigante de Bion sobre o universo humano, através desta sonda, que se chama Psicanálise.

Pensamentos Selvagens


A obra de Wilfred Bion pode ser comparada a um caleidoscópio, à semelhança com a vida do seu autor. Uma criança nascida em 1897 na Índia Imperial Vitoriana, um estudante de escola pública inglesa no início do século XX, um soldado no Regimento Real de Tanques na I Guerra Mundial, o herói de Guerra condecorado por extrema bravura, um estudante de História Moderna na Universidade de Oxford, um professor de História na mesma escola pública onde estudou, o técnico de natação para crianças, o jogador de Rúgbi, o estudante de medicina em Londres, o analisando de John Rickman, o candidato na Sociedade Britânica de Psicanálise, o terapeuta na Tavistock, o médico na II Guerra Mundial, o grupo terapeuta inovador, o analisando de Melanie Klein, o analista Didata na Sociedade Britânica de Psicanálise, o Presidente dessa sociedade, o analista em Los Angeles, o supervisor e conferencista em várias lugares do mundo, o amigo, o marido, o pai, o escritor, o pensador genial.

Todos esses aspectos produziram um discurso desafiador que, com frequência, na proximidade de entendê-lo, nos faz tropeçar em um pensamento selvagem que nos envia de volta para a estaca zero. Parece que Bion está sempre à nossa frente, desaparecendo de nossa visão. Ou como um caleidoscópio, a cada leitura, uma nova configuração aparece.

Ao longo dos muitos anos de estudos e diálogo com sua obra, me ficou uma direção de pensamento que procuro preservar. Ela sugere levar em conta sua complexidade. Todavia, não sugiro fazer isso literalmente, apenas lendo os muitos autores que temos a nossa disposição, incluindo eu mesmo. Existe até um sedutor dicionário para nos ensinar como devemos ler Bion. Mas Bion não está lá. É necessário ir mais profundamente, ir além de seus escritos, nos deixar levar pelo sentido fundador de sua obra que se instala em nossa própria experiência: o renascimento da psicanálise em cada nova sessão e em cada nova leitura. Precisamos ter pensamentos selvagens para acompanhar esse sentido fundador.

Eu penso que isso significa que a principal ferramenta para entrar em contato com Bion, depende do funcionamento de nossa imaginação. Isso implica, em primeiro lugar, que para encontrar Bion necessitamos refletir sobre a história da imaginação na psicanálise. Precisamos indagar como as ideias de Bion se inserem nessa história, e como em virtude de sua enorme capacidade intuitiva, geradora de ideias avançadas, nos coloca sempre no futuro, cujo acesso se faz apenas pela imaginação. Existe em sua obra uma porta significativa para o futuro da psicanálise. Daí a quantidade de reações ambivalentes que ela desperta diante do medo do desconhecido e da necessidade de prosseguir em lugares escuros e obscuros.

A ideia de complexidade estava presente no vocabulário cotidiano muito mais do que no científico. O significado popular pode denotar um objeto confuso ou algo de difícil compreensão. O vértice científico, graças a Edgar Morin, compreende interações e quantidades que desafiam nossas possibilidades de cálculo, e a convivência com incertezas, indeterminações, fenômenos ao acaso, caos, e até mesmo a sorte. Mais ainda, a complexidade trouxe a existência dos sistemas abertos. Aqueles que vivem num mundo classificatório, ou que dependem de diagnósticos, agem de acordo com sistemas fechados. Se os abrem para incluir algo novo, logo fecham novamente.

Podemos selecionar muitos conceitos desenvolvidos por Bion, alguns mais facilmente visíveis do que outros, como exemplo da relação complexidade sistema aberto. Por exemplo, o modelo espectral partes psicóticas/partes não-psicóticas da personalidade, a teoria do Pensar, o objeto psicanalítico, a Grade, as transformações, Memória do Futuro, pensamentos sem pensador, turbulência emocional, Cesura, simetria, ato de Fé, linguagem de êxito.

Certamente que a psicanálise não pode ser um sistema fechado, mas não podemos negar que existem correntes que a tratem desta forma, algumas explicitamente, outras dissimuladamente.

A prática psicanalítica é compelida a se questionar constantemente e a avançar com o saber que se adquire com a observação. O simples fato, e ao mesmo tempo complexo, de haver pacientes que exprimem sua dor, desafia o psicanalista a se voltar constantemente para os fundamentos da psicanálise: prática, teoria, epistemologia, e ética, se entrelaçam incessantemente.

A psicanálise, diversamente de muitas outras disciplinas está inevitavelmente aberta. Ela é ininterruptamente submetida à prova da verdade que é a escuta daquele que tem dor psíquica e tenta nos contar sobre ela. A escuta do analista tem que se preparar constantemente para essa função, e não importa aqui o montante de experiência do psicanalista. Trata-se sempre do início de uma investigação. Existe algo que é a singularidade e que não permite acomodações.

Com a obra de Bion o psicanalista foi lançado na mesma tarefa do pensador. A sua tarefa não é dar respostas e nem formular teorias, mas examinar as irrupções das diversas respostas e das muitas teorias em seus respectivos pressupostos de sustentação. O pensador precisa ter e acolher pensamentos selvagens. Na conhecida fórmula socrática “sei que nada sei”, o pensador de fato vive, em tudo que aparece, o não saber. Pois pensar não é saber. Quando se pensa não se pretende saber, e quando se pretende saber não se pensa. O pensador é aquele que não cessa de questionar as raízes em que se encontram e desencontram numa encruzilhada patrocinada pela busca da verdade, os caminhos do ser, do não ser e do parecer.

Nas discussões que se realizarão no Encontro Internacional sobre a Obra de Bion 2018, em Ribeirão Preto, o colega participante vai indubitavelmente encontrar o Bion que já é conhecido de muitos, mas sinceramente espero que propicie encontrar o Bion que até agora pode ter permanecido oculto. Minha expectativa é que tenhamos muitos pensamentos selvagens.

Atente-se que o conceito de “pensamentos selvagens” engloba duas questões “complementares”: a existência de “pensamentos selvagens”, (ou “pensamentos extraviados”) e a conveniência de sua “domesticação”.  Qual o significado deste conceito ou deste enunciado? Referindo-se à Grade, Bion nos oferece duas afirmações fundamentais: a de que um enunciado é um elemento que amarra uma conjunção constante e que o enunciado nunca é certo ou errado, mas significativo (p.16)


Acho que a tarefa primeira de uma Comissão que esteja organizando um Encontro como esse, seja “provocar” os participantes já a partir da escolha de sua temática central. Neste particular, creio que estamos muito bem servidos.  Aliás, a própria ideia de “pensamento selvagem” é, em si, um pensamento selvagem.


Mas, retornemos à nossa tarefa principal onde o “psicanalista” é imaginado como um naturalista que adentra à selva da vida mental, munido de sua caçapa para capturar os “pensamentos selvagens” que estejam por ali borboleteando. Bion nos apresenta dois destes espécimes, ambos da classe shakesperiensis: um da espécie cymbelinensis e, o outro, da espécie macbethensis,


Vejamos a estrutura da primeira espécie: “Até rapazes e moças iluminados estão fadados, como os limpadores de chaminés, a virarem pó “(Golden lads and girsl all must/As chiminey-sweepers come to dust - Cymbeline, IV,2). E agora, indaga Bion: “como escavar este conhecimento na esperança de encontrar em algum canto de seu interior um pensamento, ou quem sabe uma sabedoria ali enterrada?”


Nosso primeiro inimigo é a banalização: “Ora, estou cansado de saber que todos nós viemos do pó e ao pó retornaremos!” No entanto, Bion nos informa que Hugh Kenner (1923-2003), um crítico e professor de literatura, ouvindo acidentalmente a fala de uma camponesa de Warwickshire, descobriu um significado inesperado, provavelmente comum na época de Shakespeare: “Os rapazes e moças iluminados” poderiam representar o dente-de-leão que, quando da queda de suas pétalas, fica parecendo a vassoura de um limpador de chaminés, passando, então, a ser chamado por esta expressão.


O segundo exemplo é parte do solilóquio de Lady Macbeth enquanto produzia um arranjo mental, visando justificar seus sentimentos assassinos em relação ao Rei Duncan, para que seu marido ocupasse o trono e ela se tornasse rainha. Ela se encontra no aposento onde o rei deverá entrar para dormir e nunca mais acordar, mas rumina que a natureza do marido, impregnada do “leite da ternura humana”, não o agraciara com um instinto maligno necessário para perpetrar o assassinato que mudaria seu destino.


É, então, que ela enuncia a frase fatídica: “The Raven himself is hoarse that croakes the fatal entrance of Duncan under my battlements” (Macbeth, I, V).


O sentido desta predição é convidar a ave agourenta a ser um porta-voz da trama assassina, instilando na câmera mortuária uma atmosfera tão macabra que até o seu grasnar, normalmente cortante, soaria ainda mais agourento se embebendo de rouquidão. Os elementos chaves desta frase são a rouquidão do corvo e o umbral (battlement) da cena do crime, que criam uma atmosfera de horror e mistério,  nos gerando “sentimentos profundos e eletrizantes”, como assinala Bion.


Ora, o termo battlement pode ser traduzido como umbral, portal ou ameia, aquele vão que encimava as muralhas das fortalezas, permitindo que os defensores disparassem dali sua bestas, mas, ao mesmo tempo, se protegessem: ou seja, uma instância de ataque e defesa. No caso de Lady Macbeth, o umbral, ao ser ultrapassado pelo rei estaria selando o ataque à sua vida, mas, também, urdindo o álibi defensivo criado pelo casal assassino que já arquitetara manchar de sangue as adagas dos camareiros para incriminá-los.


Este umbral, em resumo, simboliza a transformação do leite puro e inocente no leite envenenado pelo fel da maldade (ao invocar os espíritos mortais, Lady Macbeth exclama: “Vinde a meus seios maternais e convertei meu leite em fel,  vós, gênios do crime, do lugar de onde presidis, sob substâncias invisíveis, a hora de fazer o mal!” - trad. Fernando Carlos de A.C. Medeiros).


O envenenamento de um espírito bondoso pela ambição implacável retrata a fragilidade da vida interior face aos assédios sedutores do mundo exterior: na descrição deste processo, Shakespeare valeu-se de um pensamento selvagem que foi domesticado 240 anos depois por Edgard Allan Poe, no seu famoso poema O Corvo.


O tema principal do poema é a devoção imorredoura: o conflito perverso entre desejar esquecer ou lembrar a morte da mulher amada. O protagonista está enclausurado em seu aposento (chamber) torturado por seu conflito, quando escuta uma leve batida em seu portal (chamber door): envolto na atmosfera lúgubre de uma noite glacial ele se sente aterrorizado com a perspectiva de, eternamente (evermore), ficar privado do nome Lenore, sua amada virginal.


Busca, então, suavizar seus temores, valendo-se de um refrão reassegurador (nothing more), ou seja, “nada de mais”: “nada além de um visitante noturno”; ao abrir seu portal, não encontra “nada além da noite”; sussurrando o nome da amada, tranquiliza-se dizendo: “É Lenore, nada além disso!”; inocentando o portal, ele volta-se à janela e acalma-se dizendo: “É o vento, nada mais.”


Mas, ao abrir o postigo com um solavanco, surpreende-se com a presença de um Corvo Majestoso, quem, altaneiro, empoleira-se num busto de Atenas que encimava o portal. Confrontando-se com aquela figura espectralmente repugnante e advinda das trevas plutônicas, o protagonista mecânica e impensadamente, indaga seu nome e, perplexo, escuta: “Me chamo ‘nunca mais’” (nevermore).


A partir deste instante mágico, opera-se uma transformação: o refrão nothing more murmurado pelo protagonista é substituído pelo shibbolethnevermore”, expresso sempre com convicção pela ave. O mistério daquela aparição surreal parece agora predominar, levando o assustado protagonista a conjecturar que sua fala fosse a mera repetição de algum lamento ouvido de um infeliz proprietário: mesmo assim, ainda pairava a dúvida de tratar-se de algum enigma que requeresse decifração.


Desesperado com a inesperada confusão de conflitos, e entrevendo a ave como profeta ou demônio, ele lhe implora pelo fornecimento de algum bálsamo bíblico que aliviasse sua dor e lhe pergunta se, no Éden, ainda viria a abraçar sua amada, mas só recebe de volta um implacável: “nevermore!”.


Tomando esta palavra maldita como símbolo de uma divergência irreconciliável, ele vocifera tentando expulsar o Corvo de sua casa: “Afaste este bico do meu coração, arraste sua sombra para fora do meu umbral” (trad. minha). Mas, novamente, nada ocorreu além do temível “nevermore!”.


Porém, o Corvo permanece imóvel junto a Atenas, seus olhos evocando um demônio sonhando e a lamparina projetando sua sombra no chão. Como epílogo, o protagonista lamenta sua triste sina: “E minha alma nunca mais (nevermore) libertar-se-á daquela sombra flutuando neste chão!” (trad.minha).


Neste exemplo, o pensamento selvagem já não balouça entre a bondade e a maldade, mas entre a esperança e a desesperança, equilibrando-se no umbral que separa o evermore do nevermore, intercalados pelo nothing more transacional. Em resumo, ele nos provoca com “uma espécie de reação mental”, como nos diz Bion (p.29).


Referência


Bion, W.R. (1997). Taming Wild Thoughts. Ed. by Francesca Bion. London: Karnac Books.

BION E OS MACACOS


                                                           Roosevelt Cassorla (Campinas e São Paulo)


Especulando imaginativamente reencontrei o fantasma de Bion (f(B)). Desta vez não me assustei.  Ouvi sua voz, ressoante:  


 "... o ser humano é o que eu chamaria de ‘muito espertalhão'. Alguns animais são espertos, os animais de circo, por exemplo, podem reproduzir exatamente um desfile municipal. Do mesmo modo você pode ter certeza que o paciente será capaz de se comportar exatamente como o analista – e é, em verdade, o que eles aprendem a fazer. O paciente deve apenas continuar a vir por um tempo suficientemente longo, para ter sua ‘pequena ideia’ sobre as diferentes fraquezas e hábitos do analista. Este paciente pode ser exatamente como o analista e cuidar-se exatamente como o analista. (....) Os pacientes, por consequência, preferirão frequentemente se restringir a ser como o analista. Nós podemos ver com que rapidez as crianças absorvem os maus hábitos dos pais. Os maus hábitos do analista se refletem, cada vez, junto aos pacientes e muito rapidamente”[1].


F(B) interrompe sua fala.  Seu silêncio faz com que, ousadamente, lhe indague se sabe que discutiremos sua obra no Encontro Internacional em Ribeirão Preto. Percebo-o contente enquanto fala:  "Mr. Junqueeirra de Mattos", o nome de seu querido paciente ribeirãopretano.


Em seguida me diz "espero que Ribeirão se mantenha Preto". Não compreendo e estou em vias de exasperar-me. Sentimentos comuns quando me encontro com ele. Generosamente, esclarece:  "Há que ficar no Preto, no Escuro,  concentrar-se nele para permitir que surja a luz. Caso contrário aspectos 'espertalhões' esconderão fatos verdadeiros". f(B) não suporta que macaqueiem suas palavras.  Percebo um tom solene quando diz: "macacos imitam humanos e humanos podem tornar-se macacos amestrados com melhor desempenho que macacos".


Receoso que esteja se referindo a mim, reajo dizendo que ele (Bion) nos alertou sobre esse risco. Que nós, bionianos. aprendemos com ele.  Que "...não se preocupe com macaquices de nossa parte". Instantaneamente me arrependo do que disse.


f(B) provoca: "Ah ! Vocês são bionianos ? Não tenho a menor ideia do que isso possa ser. Talvez macacos saibam."  Fico envergonhado. f(B) continua: "Saber que aprenderam comigo não me diz nada. Acontece que se pode eliminar o "a" de "aprender" e especializar-se em "prender", como fazem psicóticos, policiais, ou terroristas antes de matar. Pensamentos selvagens são trancafiados ou explodidos antes que sejam pensados e pensamentos com dono são aprisionados em dogmas".  Compreendo: há que sonhar e sonhar, abrindo espaço para que pensamentos selvagens se espraiem em sonhos que os desafiem a ampliar seu significado.  Que se perca "nome e endereço" dos pensamentos domesticados e que "seus" (Bion) pensamentos sejam vividos como se fossem selvagens, tomando de  assalto nossa imaginação.  


Não arrisquei dividir essas ideias com f(B) por suspeitar que ele ficaria bravo e me diria: "Que petulância – perder meu nome e endereço ? Isso é roubo. Tenho ouvido falar desse hábito em seu país. Agradeço por alertar-me, ainda que nada possa fazer porque não estou mais vivo".   


Em seguida a sombra de f(B) se afasta confundindo-se com o nevoeiro de meu sonho. Acordo assustado.  Arrependo-me de não ter refutado a acusação de roubo. Falaria em "escavar túmulos, desoterrar, desenterrar". E lhe leria ele-mesmo: "... a sabedoria jaz rapidamente adormecida nas moitas; por vezes enterrada não só literalmente sob os montes da terra do Zigurat, ou no Cemitério de Ur dos caldeus ou Cnossos, ou mesmo no Oráculo de Delfos ? Essa voz será audível de algum jeito"[2]. Petulante (agora sim) lhe diria:  temos que "roubar" os pensamentos e apropriar-nos deles. Tomar para nós a herança de nossos pais. Mostraria que também sou erudito, ao citar Goethe-Freud.


Ao perceber minha inveja pude viver gratidão e sentir-me Eu-mesmo.  Gostaria de mostrá-la e lamentei que f(B) tivesse desaparecido.  Mas, o nevoeiro retorna e f(B) reaparece. Diz: "O difícil esboço de gratidão fez você despertar. Traumas são ilusões que demandam trabalho de sonho.  Seres humanos (e macacos) não gostam de perceber  a complexidade das emoções, da vida. Muitos alucinam que se constituíram por si mesmos e perdem a oportunidade de transformarem dívidas em graça, gratidão. Bons pais doam vida, sonho, se tornam ricos. Culpa pelo suposto roubo bloqueia capacidade de sonhar. Inveja."   


Percebo que f(B) tinha algo mais a dizer. "Ribeirão é água em movimento, o que vemos não está mais lá e o que está lá não vemos mais. Psicanalistas aprendemos essa obviedade". E completa: "Ribeirão". Que continue "Preto", para que imaginação se ilumine.   


Desperto pensando em relações contratuais, próprias de macacos sabidos. Devaneio com "espertalhões" que se identificam adesivamente com "poderosos" de plantão. Coluna 2, quinta coluna espionando criatividade para destrui-la. Escuto ou alucino a fala de f(B):  "....supostos básicos paralisantes, que me fizeram buscar Los Angeles. Freud teve que sair. Eu e Meltzer escolhemos. Há que decidir, como na guerra:  lutar, vencer ou morrer, ou ir embora..., começar de novo"..


Emociono-me. Lembro-me de um colega tcheco contando: "Quando se abriram as fronteiras muitos chegavam, de carro, até onde antes ficavam os guardas de fronteira.  Paravam e não conseguiam ir adiante".


Teria gostado de ouvir f(B) nesse momento. O espaço da escrita terminou. Espero que f(B) retorne. Felizmente tenho uma certeza: Bion estará, em Ribeirão Preto, dentro e entre nós.  


 


[1] Schultz, LMJ (2010). Comentários sobre uma entrevista: Bion e o método. Alter-Revista de Estudos Psicodinâmicos 28: 141-154.


[2] Bion, WR (2016). Domesticando Pensamentos Selvagens. São Paulo: Blucher-Karnac, p.51.


 


 

Capítulo imaginário no livro ‘‘Tumbas De Ur.’’ de memórias do futuro. Sobre psicanálise selvagem e pensamentos selvagens.


ROSEMARY: Para mim, o selvagem é o bruto, como a carne crua, as verduras e legumes sem lavar, recém coletadas, os ovos com a casca suja de excrementos. O que acontece na preparação de um prato inventado com esses elementos, sem seguir nenhuma receita, antes de servir, sob a mesa da recepção, decorada, presentada e, as vezes, fria.


ALICE: Lamento a sua ignorância. Silvestre deriva do latim, SILVESTRIS, “relativo à floresta, ao mato”, de SILVA, “selva, floresta, mato”.


Que não foi domesticado ou cultivado pelo homem. Que não está refinado, educado ou cultivado.


ROSEMARY: Na preparação de uma receita, não há refinamento. O lugar pode parecer sujo, desordenado. As conversas dos empregados não são educadas nem delicadas, mas são verdadeiras, reais e pertinentes. Ali, todos têm vocações de psicanalistas, pelas observações agudas e perspicazes sobre seus patrões.


ROLAND: Os funcionários da corte praticam uma sábia “Psicanálise Selvagem”.


SHERLOC HOLMES: Entrar na rede de intrigas, falsidades e mentiras para descobrir fatos e evidências da realidade é uma tentação.


P.A: Não confundam a advertência de Freud, em 1910, sobre a Psicanálise Selvagem e o que eu trato de dizer com pensamentos selvagens. O adjetivo é igual, mas os conceitos são muito diferentes.


Nossa ciência é inefável, mas é preciso zelar pela precisão conceitual.


Freud nos alertou sobre o perigo de banalizar, simplificar ridiculamente nossa difícil tarefa, aplicando teorias e diagnósticos em forma selvagem; equivocações grosseiras.


A Psicanálise Selvagem nos adverte sobre as resistências e o ódio à nossa ciência-arte, entranhadas no inconsciente dos próprios profissionais que a exercem.


No lugar do tato e o contato, delicado e misterioso, com a mente do paciente, o profissional usa o martelo para acabar com o gelo, as resistências e os sintomas. O calor da relação ajudaria melhor a derreter o gelo.


O psicanalista é como o arqueólogo. Eles podem romper preciosidades. O tropismo criativo, a parte psicanalítica da personalidade, a preconcepção humana, as forças da vida, podem murchar.


Só os livros não sustentam a identidade analítica. As análises e reanálises pessoais, em certas personalidades com dons especiais, são os pilares fundamentais para afinar o instrumento do trabalho.


A má técnica pode se justificar com as racionalizações sofisticadas da moda que crescem como pragas, expressadas em linguagem articulada. Conceitos, usados como um arsenal de jargão, podem ter a função de distorcer a realidade do que sucede na relação analítica: intersubjetividade, enactment, campo analítico, plasticidade, criatividade, pictograma...


Mas, aquilo que importa, o desconhecido no paciente. pode ficar intocado. Ele tem o direito de SER paciente e cabe ao analista exercer suficientemente bem a sua função, na assimetria da relação. Muitas vezes o entretenimento da loucura de ambos, se perpetua  em iatrogênicos  ‘’análises intermináveis’’.


ROSEMARY:  E como alguém, ignorante, como eu, pode escolher um ANALISTA?


P.A: Ante a esfinge, a pergunta era: O que é o homem? Para a psicanálise a pergunta é: Quem é você? A sua pergunta revela sabedoria e o reconhecimento da sua ignorância que abre os caminhos do pensamento. Serás uma grande aliada de teu analista!!!


Para escolher um profissional, não te guie pelas condecorações, os títulos, os cargos. Eles podem te cegar com um falso brilho. Pertencer à uma instituição pode ser uma condição necessária, mas nunca suficiente. O establishment pode deformar, no lugar de formar um profissional.


Busca a pessoa no analista, seu SER. E recorda que a deterioração mental é muito frequente entre os profissionais PSI. Nosso trabalho é fascinante, mas altamente insalubre. É importante avaliar a cada momento as condições mentais do profissional, para que ele possa penetrar em águas profundas. Perceber a corrente do rio, como diria Heráclito, é importante. Nada é definitivo, eterno!!!


SACERDOTE: Homem, como te ocorreu esse nome ‘’Tumbas de Ur’’ para esse livro? Escutei falar de eternidade,...


HOMEM: A ideia de eternidade é perigosa; se usada fanaticamente, é mortal. A vitalidade dos pensamentos selvagens pode ser enterrada. Aos pensamentos extraviados se lhes dá um lugar: a tumba, onde são sepultados.


EU MESMO: Agora meu sonho é ir para Pasárgada[1], ou não para Ribeirão Preto – terra quente – cidade que me é familiar porque trabalhei com o Dr. José Américo Junqueira de Mattos, em Los Angeles. Hoje tenho a alegria de considera-lo membro de minha família profissional.


Um sonhador apaixonado, homem de coragem, que desbravou caminhos, brigou com o establishment, fundou, com outros colegas, a primeira Sociedade de Psicanálise no interior do estado de São Paulo, legitimou as análises condensadas em um país que tem o tamanho de um continente – e não de uma ilha – buscou pelo mundo, todas as minhas supervisões para estuda-las. Sua filha Gisèle de Mattos, hoje coordena um Grupo de Estudos na SBPSP com essa finalidade. O que é que esse grupo encontra nos meus comentários dessas sessões?


Como são os frutos das sementes plantadas?


Estou curioso!!!


Tenho a esperança de participar em Ribeirão Preto, de um encontro frutífero, com debate, discussão, confronto, aprendizagem, berço de novas ideés  mères!!!


Espero não ser enterrado pelas idealizações e a loucura dos supostos falsos seguidores na tumba da glória, como um Deus.


 


[1] Poema ‘‘Vou-me Embora pra Pasárgada’’, de Manuel Bandeira

ATITUDE PSICANÁLITICA


Procuro, no presente escrito, valer-me da minha trajetória como psicanalista; usarei esta dimensão para apontar como vejo os elementos que importam na minha teoria e prática.


Trata-se, pois, de uma atitude pessoal, única, que vai se desenvolvendo com o passar do exercício clínico e teórico em psicanálise, os quais estão intimamente ligados e interinfluenciáveis.


Proponho que o encontro dessa atitude psicanalítica é consequência de inúmeros fatores, quase que infinitos, dos quais vou me aproximando de alguns e me afastando de outros, que já foram próximos e úteis. Tentarei agora, descrever alguns deles, na medida em que minhas forças mentais o permitirem.


Pretendo realizar um ensaio, tal como descoberto por Montaigne (1533-1592), onde conclusões fortes e definitivas não estão presentes; o que escrevo espero que sirva como estímulo para o patrimônio psicanalítico de cada um de nós.


Faço isso porque, acima de tudo, a atitude psicanalítica é um todo em andamento, que didaticamente contém uma parte estável, central, que influencia e é influenciada continuamente por fatores ligeiros e leves que aparecem no dia a dia, quer na dimensão clínica e prática, quer nas teorias das quais me aproximo e tenho alguma compreensão; como disse, sempre em andamento. Ainda assim, há a dimensão estável e central, que no meu senso comum parece constante e à margem do dia a dia.


A teoria central que uso privilegia a experiência emocional presente no encontro psicanalítico e da qual decorrem concepções e compreensões até formarem uma teoria psicanalítica pessoal.


Sem sombra de dúvida, o autor que mais me influencia nos últimos trinta ou quarenta anos é BION, com sua extensa obra publicada, que vai sendo por mim transformada a cada aproximação que faço dela.


Penso que o centro de minha atitude clínica pode ser filiado à ideia de aprender com a experiência, que em livro, apareceu em 1962. De lá para cá penso haver um período de “lua de mel” com a teoria de aprender com a emoção presente, na qual a “experiência emocional presente” era o todo do trabalho clínico. Passado e futuro, bem como os fatos em si, compartilhados ou relatados, pouca importância apresentavam para o desenvolver de pensamento, que acontecia por acúmulo de elementos α, lugar de onde crescia o conhecimento.


A “lua de mel” noticiada acima durou muitos anos, mas, progressivamente, foi sendo infiltrada por elementos psicanalíticos outros, que estão em outra dimensão, que não a experiência emocional presente e “pura” do aprender com a experiência presente e só.


Esse novo conjunto deve necessariamente conter e englobar o aprender com a experiência emocional presente; deve, necessariamente, contê-la mas é mais complexo do que ela; abriga dimensões variadas, algumas das quais irei apresentar mais adiante.


Esse conjunto constitui um patrimônio, que cada um de nós nasce com parte dele, e que vai se desenvolvendo com o passar da experiência de vida e de psicanálise em particular.  Ele se incorpora à nossa atitude mental e influencia, poderosamente, a nossa aproximação do presente. O patrimônio citado oferece um ângulo novo a cada vez e que, no meu entender, esse novo é praticamente inconsciente. O patrimônio a que me refiro não está disponível para a minha consciência e para o meu raciocínio em especial. Não é para meu uso consciente mas está instalado e constitui minha personalidade, de onde decorre “quem eu sou”; melhor seria dizer “quem eu estou”, se me aproximo da teoria.


Uma decorrência estratégica e vital desse entendimento se manifesta na escolha atual em nossos Institutos de psicanálise. A cada dia, o interesse maior e central se encaminha para a personalidade do formando, que perdeu o paraíso de ser neutra ou resolvida e sem influência no que se vive; dessa proposta decorre que cada um de nós vê, de maneira única e pessoal o que é a vida; por isto prioriza e percebe como importante a clínica e teoria que “criamos”, e que vai constituir o patrimônio psicanalítico de cada um compartilhado na medida em que é publicado. A publicação ocorre de várias formas, uma delas acontecendo agora, por exemplo, através deste escrito que é intuído, percebido e examinado pelo outro.


Com o passar do tempo, vou me aproximando de uma proposta revolucionária, que está explicitada por Bion desde a década de sessenta, e que vai progressivamente sendo percebida: ela sinteticamente pode ser assim escrita hoje: suponho que a concepção de Bion de que o pensamento, o conhecimento consequente, se dá por uma emoção; a emoção como base do pensamento revoluciona e subverte a antiga concepção de que o pensamento se dá fora da área das emoções. Acredito que esta revolução não pode ser aceita de maneira pacífica e fácil; ela provoca retornos, minuto a minuto, à área do pensamento racional e só. Admitir a razão, a racionalidade como uma forma elaborada do pensar, está em andamento aos trancos e barrancos.


Abro agora uma divisão onde uma parte é falar sobre psicanálise, que é o que faço agora, e a outra parte, outra dimensão, é a que se refere a fazer psicanálise, viver psicanálise, que se dá essencialmente, ou exclusivamente, na psicanálise clínica, na sessão psicanalítica.


Hoje a psicopatologia do analisando, em decorrência dessa posição, perde força e essência, abrindo caminho para a psicanálise que se centra na experiência emocional presente, que depende clinicamente do ângulo, ou dimensão, ou viés, no qual me posiciono e valorizo, utilizando para isso meu patrimônio citado acima.


Cada um de nós, penso eu, em atividade clínica e teórica utilizará a dimensão de falar sobre psicanálise, fora do consultório psicanalítico; e vivendo e exercendo a dimensão de estar em psicanálise dentro dele. Nessas dimensões temos a condição favorável, de perceber o quão única e pessoal é nossa atitude. Para isso necessitamos, quer na clínica quer na dimensão teórica, de capacidade de suportar o que o outro vê e intui, na situação e que é necessariamente diferente do que vejo e intuo.


Chamo de respeito um elemento essencial para a psicanálise que se centra no aprender com a experiência emocional presente; pois se desrespeitamos o outro enquanto diferente de nós e se com isso ele deixa de ser uma pessoa, não é possível aprender com a experiência, pois certamente utilizaremos memória e desejo para caracterizar e nomear o que percebemos. Isto vale, nunca é demais lembrar, para mim e para o outro; vale para o par psicanalítico.


Loucura, burrice, psicopatia, psicose, neurose, regressão, transferência e contratransferência são nomes que são usados, com muita frequência para substituir respeito e compreensão diante do outro diferente de mim. Proponho que minha função psicanalítica não é esclarecer para o outro o “certo” ou “normal”, que está em mim. A atitude psicanalítica é participar da experiência no encontro psicanalítico em andamento.


As descrições clínicas mais frequentes que fazia antigamente, mas que, vez por outra, faço no presente com meus analisandos e que estão apoiadas em teorias de personalidade que se apoiam em certa psicopatologia compatível com as mesmas foram progressivamente ganhando uma compreensão de que elas são decorrentes do interesse e foco que emprego. Por assim dizer nascem do encontro para formar-se e robustecer-se. São, penso eu, consequência do entrechoque das duas personalidades ali presentes.


Acredito firmemente que hoje o analisando é visto por meio de minha atitude psicanalítica, a qual forma o meu patrimônio psicanalítico, sempre em mudança. É através desse patrimônio que cada um de nós intui, percebe e deduz as características mentais de quem está diante de nós.


Insisto que o analisando em contato com o analista será atraído para o que prevalece na mente do analista. Bion diz, por várias vezes, em sua obra, que a área de trabalho psicanalítico está onde se dá o conhecimento (K). É vedado ao analista, enquanto trabalha com a experiência emocional presente e possivelmente compartilhada com a analisando, viver e priorizar as dimensões pessoais de amor e ódio, pois estas não levam ao conhecimento emocional, por si mesmas.


Os institutos de psicanálise, em particular o de nossa Sociedade, na qual milito e influencio, oferecem ao analista dimensões variadas de aprendizado: análise didática, supervisões, seminários clínicos, cursos teóricos, além da convivência em grupo para a maioria das atividades. Espera-se, com isso, que cada um de nós mergulhe no ambiente de modo a construir uma atitude psicanalítica pessoal e em andamento, o que acontece a cada momento, inclusive, neste momento em que apresento este escrito, esperando que seja uma gota dessa atitude.


Cada um de nós, sem cessar, ativamente, vai colhendo alguns elementos dessa imensidão oferecida e vai formando sua própria concepção de psicanálise. Ela continuamente agrega fatores e descarta outros, já existentes, mas que perdem a atualidade; não se encontram mais em uso. O essencial e básico dessa construção é feito de modo inconsciente, não podendo, pois, ser objetivamente apresentado.


Na minha experiência levei muitos anos para que pudesse formular um conjunto dinâmico de elementos, que são o que percebo como centrais e essenciais, como patrimônio, e que me orientam na clínica e consequentemente também na teoria.


Apontarei apenas que o centro de meu interesse, quando estou psicanalista de acordo comigo mesmo, é o que chamo de experiência emocional, desejavelmente compartilhada, ao menos em parte, fator básico e essencial para aprender na experiência e desenvolver pensamentos que convivem sempre com elementos de “não pensamento”, que constituem o que chamo de função psicótica da personalidade.


A seguir menciono os trancos e solavancos que Bion e em seguida eu mesmo sofremos, cada um à sua maneira e com seu patrimônio, com o aparecimento da teoria das transformações; de funções que vão além do conhecimento; ou funções acontecendo diferentes da experiência emocional (K); elementos que por vezes são chamados o “sendo” na vida toda, mesmo antes do nascimento biológico; e de dimensões que vão além do tradicional campo de experiência emocional presente, base para o pensamento e função α. Inserem-se aí as ideias de pensamento sem pensador, de pensamentos selvagens, que procuramos domesticar; outras funções que estão em área nem consciente, nem inconsciente, etc. etc. Proponho que estes agregados à teoria da experiência emocional presente, decorrem das dificuldades que vamos apurando na clínica, as quais restringem e por vezes impedem o ato de fé; estes novos elementos acrescentados procuram ser uma complementação da teoria das emoções anteriormente apresentada; procuram supri-la de novas dimensões.


Acrescentei, dentro dessa atitude psicanalítica, o ato de fé que me permite estar disponível para a emoção vivida. O ato de fé cria uma “força” para me manter no que percebo do presente vivido.


Creio que agora posso esperar as consequências do que apresento e se for o caso, comentar algum ponto de interesse, usando meu ponto de vista da ocasião.


Aponto como estímulos imediatos para o que escrevo aqui, um texto meu inédito, preparado para a aula inaugural de nosso Instituto em 2017. Além dele, o texto de W. R. Bion “Domesticando pensamentos selvagens”, traduzido por Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho. 

O CONHECIDO, O DESCONHECIDO E O INCOGNOSCÍVEL


Julio Frochtengarten[1]


Avançamos devagar em nossos conhecimentos – esta é a sensação que se nos impõe de imediato quando olhamos de relance os nossos anos vividos. Mas uma reflexão ainda que rápida, uma espiada breve em um livro da história de qualquer ciência, logo relativiza esta noção e, então, percebemos alguns ganhos alcançados, pequenos aprendizados, mudanças na forma de ver as coisas do mundo. Nossas curtas existências frequentemente não nos permitem dimensionar nosso próprio avanço, seja em termos de conhecimento, capacidade criativa ou originalidade.


O conhecimento avança sempre à custa de romper limites que se impõem por já não dar conta das realidades que se apresentam. Psicanálise também tem se feito assim, na clínica e nas teorias.


Nas últimas décadas, a ampliação da noção de um domínio mental que se estende para além do consciente e do inconsciente reprimido, e das estruturas id-ego-superego, tem alargado o campo de atuação possível no dia-a-dia do psicanalista, transformando as possibilidades do trabalho clínico e a produção teórica. Riqueza, criatividade e ideias novas são os ganhos que percebo com essas expansões. Apesar delas, continuamos a usar o mesmo termo "mente", mas é apenas uma forma de nos referirmos a algo que desconhecemos. Qualquer que seja a concepção que tenhamos do que significa mente, é certo que sentimentos e outras formulações – ideias, imaginações, sonhos – ganham expressão a partir de algo incognoscível.


Nossos conceitos psicanalíticos são uma forma de organização do que se experimenta na clínica. Eles dão ordem e coerência à realidade psíquica, sentido e significado a ela; sedimentam o que se sabe e supõe a respeito da mente e se fazem acompanhar da sensação de coesão que nos permite lidar com o que vai surgindo no âmbito do conhecimento. Já, o abandonar o que é conhecido, me colocar receptivo ao que não sei, é fruto de um esforço contra o hábito e a compreensão. Mas a realidade desconhecida – e tantas vezes incognoscível – está aí: há que se ter olhos para ver, ouvidos para ouvir, insaturação para intuir, receptividade para acolher. É preciso disciplina para nos conduzirmos à semelhança do que Bion falou de seu próprio trabalho: “o traço dominante de uma sessão é a personalidade desconhecida, e não o que o analisando ou o analista pensa que conhece” (Bion, 1970/1973, p. 96). Formulações finitas nascem dessa matéria bruta, a desconhecida mente primordial, “o nascente mundo de profundas, escuras águas; arrebatado ao infinito vazio e sem forma". (Milton, J, apud Bion, W. R. Transformações, 1965/2004, p. 176).


Esta é uma dimensão da mente que passa a ser conhecida e que convive com outras, conhecidas ou não. A interpenetração e simultaneidade de consciente e inconsciente, do sonho na vida psíquica de vigília; a presença de fantasias construídas na infância em todos os aspectos da vida atual – são marcas da simultaneidade entre diversas dimensões da mente.


Reconheço que, tendo adotado estas extensões – a noção de um inconsciente infinito e a dimensão multidimensional do funcionamento psíquico –, somos tomados por perturbação pela perda de conhecidas referências, tanto as próprias como as do grupo psicanalítico maior a que pertencemos. A interpretação, nosso instrumento por excelência, se mostra em seu limite de alcance e possibilidade. Não só tornar o inconsciente em consciente, não só o "onde era id, será ego", não só o atribuir de significados. Outro instrumento para a atuação do analista na sessão precisa ser desenvolvido e caracterizado: uma atitude que seja receptiva – ou até mesmo favoreça – que possa fazer brotar na sessão, no trabalho a dois, o que ainda não se conhece e que "urge por existir".


O interesse pelo que não sei é uma postura clínica do analista experiente que o dispõe para receptividade e submissão ao infinito da experiência. Por sua vez, as apreensões psíquicas que daí decorrem são bases para que possa prosseguir um trabalho com o analisando, mas não esgotam o que não se sabe: ao contrário, ampliam o desconhecido.


A caracterização de uma atitude receptiva para com o que não se sabe tem sido formulada mais pela negatividade do que pela revelação assertiva de suas qualidades. Freud propôs que o analista precisaria “cegar-se artificialmente”; Bion (1970/1973), que o analista precisaria trabalhar sem memória, sem desejo e sem compreensão.


Explorando alguns elementos afirmativos, e relacionados com tal atitude na prática clínica, atino com os seguintes:



  1. Adoção de algumas poucas e amplas teorias psicanalíticas, a funcionar como um balizamento da experiência, tomando parte como mediações na submissão ao infinito e favorecendo a evolução de sensações e emoções para pensamentos.

  2. Emprego pelo analista de Linguagem de Êxito (Bion, 1970), na medida em que uma formulação certeira – ainda que rara – pode, provocando sobressalto, evidenciar a imprevisibilidade e abrir para um enriquecimento insuspeitado da experiência imediata (Frochtengarten, 2015).

  3. Considero, como modelo para pensar a função analítica frente à mente multidimensional, a flâneurie como protótipo do que se pode chamar de observação na era moderna. Walter Benjamin, o filósofo da Modernidade, apoiando-se na poesia de Baudelaire, se serve deste modelo para aludir a alguém que caminha, aparentemente distraído, mas atento aos detalhes da cidade e seus habitantes, procurando depreender os sentimentos e intenções que os movem.


Penso que este modelo atende melhor ao vértice psicanalítico quando comparado ao da investigação, pois considera as dimensões incognoscíveis da mente e não o perseguir vestígios sustentados por conhecimentos já adquiridos.  A flâneurie tem, como fundamento radical, aquilo que não se sabe, permitindo que nos aproximemos da multiplicidade, do efêmero, da beleza do acidental, instantâneo e transitório (Frochtengarten, 2016).



  1. Acolhermos eventuais Pensamentos Selvagens (Bion, 1997/2016) que brotem, seguindo-os como um flâneur e tomando-os como fiapos de pensamentos, poderá contribuir para a realização de nossa paráfrase edípica - “onde era ignorância, será conhecimento”?


Talvez haja um paradoxo ditado pela distância intransponível entre o que é possível conhecer, estando imersos na experiência, e a essência da experiência – que, por ser incognoscível, não se sabe e nunca se saberá. Poderá o modelo do flanar ingênuo,  “sem memória, desejo ou compreensão”, através de Pensamentos Selvagens, nos acudir e amortecer esta distância?


 


 


Referências:


Bion, W. R. (2004). Transformações. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1965).


Bion, W. R. (1973). Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1970), 1ª edição.


Bion, W. R. (1991) Uma memória do futuro. São Paulo: Martins Fontes; Rio de Janeiro: Imago, 1991


Bion, W. R. (2000) Cogitações. SP, Imago Editora, 2000.


Bion, W. R. (2016). Domesticando Pensamentos Selvagens. São Paulo: Blucher-Karnac. (Trabalho original publicado em 1997).


Frochtengarten, J. (2015) Nos limites da representação: comunhão, fruição estética e prazer autêntico. Trabalho apresentado em mesa redonda, no XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise, outubro de 2015, SP.


Frochtengarten, J. (2015) Comentários ao trabalho “Wilfred Bion e James Joyce: um encontro estético” de Celso A. V. Camargo. Trabalho e Comentários apresentados em Reunião Científica da SBPSP em 25 de fevereiro de 2016.


 


[1] Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


  juliofro@uol.com.br


 

Domando[1] emoções selvagens[2]


Cecil José Rezze[3]


 


O “Cambridge International Dictionary of English” registra: Tame v(T) *It’s hard to tame a tiger. * He’ll need to tame (=control) his temper if he wants to succeed.


Do verbo “to tame” traduzi livremente por domando, que corresponde a duas acepções, pelo menos, conforme as referências acima. A primeira considera domando um animal selvagem tomando o título do livro de  Bion – Taming wild thoughts – no sentido de domar uma força animal como a de um tigre. Concretizando, veremos a proposta de um risco fatual de se enfrentar um pensamento selvagem, como equivalente a um tigre, algo de selvagem no animal humano, que pode colocar nossa vida em risco. A segunda acepção considera os sentimentos que precisam ser domados (controlados) e a igualmente situação perigosa de lidar com a alma, espírito ou mente quando as emoções são selvagens.


Quanto aos pensamentos selvagens, escolhi um trecho do livro “Seminari Italiani”[4], (1983, p.77) que vem a ser uma pergunta que um dos participantes faz justamente sobre o tema. Creio que a pergunta e o que se segue permitem a realização do conceito.


“A abertura do discurso de ontem do Dr. Bion me pareceu muito bonita como imagem; poderíamos ver os pensamentos selvagens passeando pela sala; mas depois eu me perguntei: estes pensamentos são uma emanação do espírito santo, ou se não, o que está nos dizendo o Dr. Bion? Esperei então que nos resolvesse o mistério do início do evangelho de São João, que nos dissesse onde estava o verbum e que nos ajudasse a entender como ele se havia feito carne; mas todo o resto do discurso não me ajudou muito nisso e, sobretudo, a longa e meticulosa investigação sobre a trabalhosa aquisição da linguagem pelo homem, a partir do grunhido, me desorientou. Pareceu-me contraditório aquele início: em suma, Deus, ou o que seja, grunhe ou fala?”


Um outro participante tenta falar, mas fica a meio, porque “há muitos ruídos na sala”. Bion a seguir começa a responder e assinala algo ligado a “tanto barulho na sala” (Rezze, (2006, 2009).


Podemos considerar a fala do participante descrito como expressando um pensamento selvagem. Também podemos levar em conta que em “Aprender com a experiência”, Bion considera o conhecimento como fazendo parte dos vínculos emocionais como amor e ódio e, portanto, o pensamento fará parte do vínculo conhecimento, embora não fique claro a que corresponde a emoção do conhecer ou do pensar.


Se considerarmos a indagação exasperada que surge no grupo com a consequente fragmentação momentânea do mesmo, podemos supô-lo operando não como um grupo de trabalho, mas sob o pressuposto  de luta e fuga (Bion, 1970).


Quanto ao vínculo operante na situação escolhida, podemos considerar  que há uma  fragmentação do vínculo conhecimento e o surgimento de intensas vivências de ameaça, violência, agressividade e atuação franca  determinando perplexidade e confusão entre os elementos do grupo.


Então, podemos considerar o episódio como tendo havido a intervenção de um pensamento selvagem, mas creio que o determinante foi a emoção do participante, que sentiu a intervenção de Bion como um pensamento selvagem, avassalador, ameaçador, violento, agressivo, destrutivo, determinando uma resposta violenta que paralisou o grupo de trabalho. Não houve propriamente o tempo para haver um pensamento e sim para a reação emocional, embora a sua colocação em termos verbais tivessem consistência e clareza.


Bion, principalmente em suas supervisões, encarece a importância do pensamento selvagem, possivelmente como fonte original de criatividade, e convida os presentes a participarem externando seus pensamentos selvagens, pelo menos como eu creio que ocorria, embora, a meu ver, raramente o seu convite surtisse o efeito desejado, talvez pelo que estou considerando, ou seja, a emoção selvagem. Suponho que em situações com estas, em que se está em contato com o grande mestre - Bion -, emoções violentas como as do temor reverencial, o receio de se intervir com sentimentos e ideias que possam ser consideradas como insignificantes, levam os presentes a considerarem sua participação, como o que, na terminologia de Bion, seria o temor à mudança catastrófica.


Considero que na Psicanálise houve um magnífico desenvolvimento de teorias sobre a personalidade, com Freud, Klein, outros autores e seus continuadores. Em Bion temos uma original teoria do pensamento, que subverte os conhecimentos tradicionais, que nos coloca sob o impacto de pensar os pensamentos, desenvolvendo um aparelho psíquico para fazê-lo. Os autores partem da  emoção, Bion particularmente com o conceito insaturado de experiência emocional, mantendo um viés científico da psicanálise, possivelmente se originando com as teorias de Locke, Hume e contemporâneos como Schlick, .........


No entanto, devo considerar que não dispomos de uma teoria que trate da emoção e do sentimento, embora todos autores a eles se refiram, como por exemplo, Bion que propõe uma Grade (Grid) em emoções, porém em seu livro “Elementos de Psicanálise” (Bion, 1966), que possui vinte capítulos, somente em dois ele propõe que a grade em conhecimento se preste às emoções, porém de forma tênue,  se considerarmos a consistência dada ao pensamento quando trata do conhecimento.


Tenho tentado pensar  a respeito e verifico que a emoção ou sentimento, que é comum ser tratado na psicanálise, é a dor, Bion acentuando que esta é imprescindível à psicanálise, não porque haja qualquer virtude em viver a dor, mas porque ela é inerente ao ser humano. Subvertendo esta ordem, sem contradizê-la, tenho acentuado a imprescindibilidade do prazer, na especificidade do prazer autêntico (Rezze, 2011, 2012, 2014, 2015 e 2016, Rezze e Braga, 2016)


 


Bibliografia


Bion W. R. (1966). Elementos de psicanálise. Rio De Janeiro: Zahar Editores. (Trabalho original publicado em 1962).


---- (1970) Experiências com Grupos. Rio de Janeiro. Imago.


---- (1983). Seminari italiani. Roma: Edizioni Borla.


---- (1997) Taming wild thoughts. Edited by Francesca Bion. London. Karnac Books.


Rezze, C. J. (2006) Aprender com a experiência emocional: e depois? Turbulência! Rev. Bras. Psicanál, v.39, n. 4, p. 133-47.


---- (2009) Turbulências: do aprender com a experiência emocional ao pensamento selvagem. In: Rezze, Cecil José, org; Marra, Evelise de Souza, org; Petricciani, Marta, org. Psicanálise: Bion: transformações e desdobramentos, p. 13-29. São Paulo : Casa do Psicólogo.


---- (2011) Limites: prazer e realidade. Objetivos da análise: prazer possível? Realidade possível?  XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise. Ribeirão Preto, setembro 2011.


---- (2012) Prazer autêntico: mudança de paradigma? Painel Prazer Autêntico: Prazer – Amor – Psicanálise? 29o Congresso Latino-Americano de Psicanálise. São Paulo, 10-13 de outubro, 2012.


---- (2012) Prazer autêntico: mudança de paradigma? Painel: Experiência emocional, prazer autêntico e estados de terror, 29o Congresso Latino-Americano de Psicanálise. São Paulo, 10-13 de outubro, 2012.


----  (2014) Prazer autêntico - o belo -  estesia .Idéias embrionárias. Apresentado em reunião científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto em 8 de agosto de 2014.


---- (2015, 2016) Prazer autêntico: a fratura.  Apresentado no XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise, 28/10/2015. São Paulo. Trabalho apresentado na SBPSP em 13 de fevereiro de 2016 em Painel intitulado "Além dos limites da representação: comunhão, fruição estética e prazer autêntico".


Rezze, C. J. E e Braga, J. C. (2016) Authentic pleasure capture of moments of unison with reality. Apresentado no Congresso de Los Angeles e a ser publicado no livro "Everything we know nothing about: explorations in Bion's 'O' pela Karnac.


 


[1] No texto  “Taming wild thoughts”, o verbo usado é “to domesticate” (Bion, 1997).


[2] Apresentado em Conversas Psicanalíticas em 24 de junho de 2017


[3] Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutor em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


[4] Tradução de Renzo Birolini. 

O GATO DOMESTICO E O GRANDE FELINO


Júlio César Conte (Porto Alegre)


Acordei, era noite e não sabia dizer se o que me assombrara fora um sonho, uma alucinação ou outra coisa qualquer. O pensamento continha algo de sonho, de alucinação e alguma outra coisa que não conseguir discriminar. O pensamento que me despertou foi o seguinte:  o gato doméstico sonhava em ser um grande felino.


Abri os olhos e era madrugada. Estava há meses preocupado em publicar alguma coisa sobre Pensamentos Selvagens, mas até então nada me ocorrera. Deixei a preguiça aproveitar a cama enquanto lembrava de uma experiência um tanto obscura feita com gatos. Não conseguia identificar a fonte, mas sabia ser de uma investigação sobre a fisiologia dos sonhos na qual cientistas faziam ablação em partes do cérebro responsáveis pela inibição da resposta motora. A consequência era que, ao suspender a inibição, deixava o corpo livre para reagir aos estímulos oníricos como se o sujeito da experiência estivesse acordado. Resultando que estes gatos domésticos, vitimas do cruel experimento, reagiam ao sono REM repetindo movimentos dos grandes felinos durante a caça. Aproximações sorrateira, corridas, saltos e toda a sorte de repertório de caça utilizado pelos leões, tigres, pumas e leopardos.


Nas brumas do despertar, vislumbrei algo que buscava. Através de um pensamento pictórico encontrei uma espécie de representação/sentido/significado de um pensamento selvagem. Pode-se imaginar que existam pensamentos domesticados, estabelecidos, reconhecíveis e solidificados, portadores de cartões de identificação, com nome, endereço e CPF do autor. Do mesmo modo nos defrontamos com pensamentos familiares, mas com propriedade desconhecida para o pensador e, mais além, pensamentos selvagens nos quais se produzia a sensação de estar em terreno primitivo, violento e original.


Cada pensamento domesticado estaria envolto numa capa calcificada, rígida, mas que se pudéssemos avançar sobre a fibrose, os clichês, ossificação e o estabelecido, correremos o risco de encontrar, no cerne do ser, o infinito profundo do pensamento. Envoltos na nevoa da aurora, nos depararíamos com o grande felino, rugir, frente a frente com espanto e surpresa. Dentro do pensamento domesticado repousa o indomesticável. É notória a luta de Bion contra o satânico jargonismo e os clichês mentais. O gato pode ser um clichê, mas por trás dos clichês há uma verdade inexorável que foi tornada conhecida, palatável, aceitável e domesticada. Do pensamento inserido nas narrativas dos nossos pacientes, no dia-a-dia do social, na aparente banalidade da vida cotidiana, foi retirado a violência primitiva restando depurado e pasteurizado algo institucionalmente aceito para grande consumo. A poesia pode se deteriorar no uso e a repetição ao mesmo tempo que, popularizada, torna-se vulgar. Como se pudéssemos de uma ideia extrair o seu veneno como café sem cafeína, cerveja sem álcool. Tira-se aquilo que faria mal, o excesso sonegando aquilo que nos acorda, nos desperta, nos amanhece.


Nesta perspectiva, talvez, o pensamento selvagem não seja um elemento original em falta no mercado, mas uma invariante, uma constante clandestina que sobrevive em cada afirmação. E que, ao observador, se habilita reconhecer tais pensamento na medida que nos inserimos e nos e implicamos na verdade da transferência. Em busca de uma psicanalise implicada em oposição a explicada. O pensamento envolvido sobrevive as escaramuças do autoritarismo, do discurso institucional, dos clichês e do lugar comum. No volume I da Memória do Futuro Bion se pergunta se a intuição psicanalítica não provê uma reserva para os asnos selvagens, onde se vai achar um zoológico para preservar as espécies?


Bion sustentou, as palavras servem para confundir, mas também podem comunicar, embora involuntariamente. Revelaria então o selvagem do pensamento. Barthes diz que o sujeito ao falar não se comunica, mas se expõe.


É o que eu faço aqui.


O vinculo, a reverie e a função alfa derivam de uma capacidade de receber o selvagem da exposição. Tomar contato exatamente aquilo que faz sentido, nos une e se revela clandestino em sua origem indomesticável. A essência do pensamento.


Expus para vocês um fragmento de um sonho, alucinação ou outra coisa, porque penso que os pensamentos selvagens se conectam com o nosso desconhecido. O mesmo que mergulha no umbigo dos sonhos que nos habita. E que não respeitam outra língua que esta.

“Wild Thoughts:  A Dream and Follow Up”


by Avedis Panajian, Ph.D


In a community, everything was ruined and was an amazing scene of change and destruction. It was a very colorful destruction, and I knew I had some role in it. There were many people around, some of whom I recognized from my childhood. In the midst of all the destruction, I began talking to them and said, "not to worry, we can still cook eggs" I said this but did not see any eggs. While we talked, we were looking and walking among stunning artistic ruins, and there was a lot of yellow liquid all over the ground. The slippery substance was splattered everywhere and had a consistency like egg yolks. I started lifting and putting pieces of the ruins from one place to another. Again I noticed just how widespread the yellow liquid was: it was staggering to me. The whole scene looked like a painting of a landscape in destruction, a beautiful piece of art in ruins. The people and I continued walking together and none of us were worried. I then told a few of them, "now we will wait. When it is ready it will come to us and then we will write, create, make. When it is ready." I knew they understood what I meant: they grasped that my words had to do with the art of timing. I felt I was a gentle director or a community leader for them, with nothing in me except the feeling of groundedness that follows creation. 


Now, as I write this, this last moment in my dream seemed a perfect one in which to die. But if I had, I would have not known the dream or my non-flamingo mind, or my son that I also miss. These were some of my thoughts at first, then a few more followed. A beautiful nothingness, or cow shit coming out of me as fertilizer. A landscape and a mind with a million pounds of slippery yellow stuff in it. I was arranging nothing to nothing, but the timing was key, as was the yellow formlessness of the liquid. I now feel I will save this cow shit. I am on a liminal journey into a new nothing, between journeys, waiting in a formless form with order but without safety. Full of imagination without images that mean anything. I am waiting, patiently and calmly, and am enjoying the aesthetic formless form that came to me with no meaning, except the message that something was going to burst forth from me. I am looking forward to it.”   


Soon after I wrote this dream, I was dissatisfied with what I had written. Being dissatisfied in telling and writing wild thoughts allows me to open up to a fuzzy horizon in my dreams that makes an impression on me that resists verbalization. Once I write about wild thoughts, something freezes in me and is lost. Ironically, being aware of such a loss allows me to see a new horizon and a new beyond where wild thoughts become possible again. I am able to approximate the sense of the beyond through which images, colors, touch, rhythm, music all became possible as aspects of my imagination.


My telling and writing of the dream gives the erroneous impression that my experience of it was contained. In writing it, I was trying to hold and contain the yellow yoke-like substance that had no form and kept slipping from me. It’s formlessness was extremely painful to perceive, and I was anxious that it was going to disappear from me. I was anxious not because of my experience in the dream, but because of the elusiveness of the beyond. In writing about it, I was trying to figure out and grasp the yellow liquid and the entire abandoned landscape, but it was not possible. Whenever I tell and write about my experience of the beyond, the immediacy of it is lost. Words create a wound, and always create a distance from the immediacy of my experience.


The anxiety and the fear I felt about the dream was also partly due to its imaginal possibilities. It was my attempts to both deny and face these possibilities that led me to anxiety and fear. I did not feel these feelings in the dream: it was only weeks later as I was recalling it that these feelings came upon me. Each time I attempted to revisit the dream, what I perceived in it reignited these feelings in me.


Wild thoughts offer a journey of possibilities, but writing and elaborating about the possibilities is a way of deceiving oneself about these potentials. The vague, the ambiguous, and the inarticulate need to have a significant place in our psychic life.  There was so much that resisted articulation of my dream.  


The imaginal that is perceivable through the beyond and generative of our wild thoughts requires respect. It also needs to be approached with a pre-cognitive and pre-perceptive attitude. In the dream, I was telling the people to “wait and when it is ready, it will come to us.”  Anticipating my temporary feelings of groundedness (and anticipating their dissolution) led me to wish to die so that my death would make permanent the transient nature of such powerful feelings.


In crossing, and in between, there is timelessness and suspension. One is neither on one side nor on the other. I feel the symbolism of birth and rebirth is strong in this space. Being in between destroys continuity and cohesion, and our need for form and structure in the midst of this blinds us to the anxiety and dread that such a state evokes. The negation of our need for articulation and our capacity to welcome paradoxes and ambiguity allow the possibility of birth and rebirth.  


The risk of imaginative narratives and images is that they can conceal gaps, disjunctions, and the nonexistence of objects. The fragmented body is mainly revealed in dreams. Imagination tries to avoid disjunctions and unarticulated realities, while memory protects us from overwhelming perceptions. Memory also plays a role in delusional unity. For instance, a dream where there are childhood friends conceals the intensity of psychic pain that might otherwise be perceived the dream.  

Aproximações entre Pensamentos Selvagens e a Consciência Moral Primitiva


 por Gisèle de Mattos Brito


“Podemos estar lidando com coisas que são tão delicadas que são praticamente imperceptíveis, mas que são tão reais que podem nos destruir, quase sem que estejamos cientes delas. Esse é o tipo de área que temos de penetrar.”


Bion (1976, p.246)


 


Ao ler a Supervisão A12 de Bion, dentre os inúmeros aspectos importantes que a mesma aborda, senti que estava diante de um material precioso e que poderia nos ajudar a pensar e, quem sabe, colaborar para a expansão de suas ideias sobre a mente primordial.


Sim, esses vestígios de proto-pensamentos vividos no corpo, experiências sensoriais incontidas mentalmente por impossibilidade de representações, e a questão dos pensamentos selvagens emergiram como ideias. Intuí, frente ao material da Supervisão, que poderíamos fazer uma aproximação entre os pensamentos selvagens e a consciência moral primitiva. Essa ideia foi altamente estimulante. Fui reler sobre pensamentos selvagens e consciência moral primitiva, dimensões da mente primordial.


Nos últimos trabalhos de Bion (1976-1979) ele conjectura e delineia a existência de uma mente primordial. Essa mente primordial segundo Bion(1979) faz parte do Self, que compreende corpo e mente. Seu vértice de observação é somato-psíquico, conjectura todo o tempo a existência de trocas, comunicações de um campo para o outro. Ficou-me a impressão, corroborada com a leitura da Supervisão referida, que ao mesmo tempo que acreditava que as experiências pré-natais do feto ficariam inacessíveis após a cesura do nascimento, por outro lado, parece acreditar que as mesmas deixaram traços, vestígios sob a forma de sentimentos hostis transformados em proto- ideias Bion (1976 p. 245), ou seja, o feto a termo poderia sim ter uma mente, uma personalidade.


É curioso pois, ao mesmo tempo em que Bion se refere a essa dimensão de uma mente inacessível, ele aponta sua crença na existência de vestígios mentais, traços de memórias. Ainda que distinga essa dimensão da mente inacessível de uma mente mais organizada que funcionaria numa dimensão consciente/inconsciente da mente ele diz:


“Parece-me que há certos desenvolvimentos prematuros e precoces que são prematuros ou precoces demais para serem tolerados. Assim, o feto, o id, faz o que pode para romper essa conexão.” p. 237


Bion (1976) me parece aprofundar este ponto. Vejam:


“No entanto, há agora uma camada adicional dessa crença fantástica de que algo foi eliminado. Mas suponhamos que não tenha sido esquecido, que simplesmente torna-se parte essencial de uma mentalidade arcaica, pensamento inconsciente – apesar da contradição nos termos – que é extremamente ativa.”  p. 241 (grifos meus).


De que inconsciente Bion estaria falando? Minha impressão é de que está falando de um inconsciente ligado a nossa herança filogenética, algo mencionado por Junqueira e Braga (2009) “A isto somar-se-ia nossa herança filogenética, que em uma imagem poderosa surge como sermos ‘espécimes arqueológicas vivos’ de termos enterrados em nossa mente uma sabedoria de gerações anteriores. ‘Pensamentos sem dono’” e ‘pensamentos selvagens’ seriam formas com que esta mente primordial ganharia nosso sistema consciente/inconsciente”p.12


Algo inconsciente (filogenético) ganharia nosso sistema consciente/inconsciente? O Id? Como o grande caldeirão de impressões, pré-concepções?


Bion (1977) define os pensamentos selvagens como um “pensamento extraviado”, uma das formas de pensamento “sem-pensador”,  que poderá ou não ser acolhido, seja pela mente do paciente, como pela mente do analista. Vai depender da condição da dupla de desenvolver uma continência para que as vivências terríficas possam ser contidas e vivenciadas, naquele momento, do encontro analítico. Destaca na Supervisão A12 a importância da continência analítica, pelo analista; de se manter firme, presente para o desenvolvimento da condição de transformação do terror em dor mental tolerável. Destaca a peculiaridade e utilidade da psicanálise, ou seja, experiência emocional útil é aquela que está acontecendo na relação, no momento da experiência emocional e que se o paciente e analista acreditarem e não desistirem, poderão colher melhoras dessa conversa tão poderosa e peculiar.


Junqueira e Braga (2009), destacam que a dimensão da mente primordial compreende os ‘pensamentos sem dono’, os ‘pensamentos sem pensador’, assim como os sentimentos de sermos ‘sós e inteiramente dependentes’, a consciência moral primitiva e o ‘urge para existir’, “constitui manifestação identificada com uma mente primordial, enraizada no funcionamento cerebral e glandular pré-natal, permitindo-nos um vislumbre de uma dimensão da mente que fica-nos inacessível com a cesura do nascimento”p.3


Bem, diante do exposto acima eu me pergunto: Será que fica-nos, de fato, inacessível com a cesura do nascimento? Não seriam os pensamentos sem pensador, e os pensamentos selvagens registros de pensamentos que ficaríamos inconscientemente aware? Ou seja, um conhecimento inconscientemente, ligado a essa mentalidade arcaica, pensamentos inconscientes a que Bion se refere acima? E que ficariam acessíveis à partir de nossas experiências emocionais, quando esses pensamentos se extraviam e evolvem de O? E esses mesmos sentimentos e pensamentos irrompem na mente e são vividos como pensamentos terríficos?


Bion (1977) “Eu preciso considerar o estado de mente peculiar no qual nos encontramos  adormecidos ou, como nos acostumamos a dizer (inclusive por ter se tornado um  lugar-comum no pensamento psicanalítico), quando estamos inconscientes, querendo dizer com isto estarmos em um estado no qual não estamos cônscios, ou estamos pouco, de nossos pensamentos e sentimentos”.  P. 39


Se podemos estar cientes inconscientemente de nossos pensamentos e sentimentos, os mesmos podem irromper como memórias em sentimentos, que poderiam ser os vestígios catalizadores de pensamentos sem pensador? Ou ainda, os próprios pensamentos selvagens? Tenho a impressão de que esta é a ponte entre a mente primordial e os desenvolvimentos posteriores à cesura do nascimento. Ou seja, a consciência inconsciente como a vara que pode pescar essas memórias em sentimentos, pensamentos selvagens, possibilitando a irrupção dos mesmos a mente. O que me move nesta direção é a percepção da qualidade terrífica desses pensamentos somado a percepção, pelo paciente, de ideias sentidas como um corpo estranho que ameaçam, geram culpa e que o paciente não consegue saber de onde vem.


Levantei algumas conjecturas. O que estaria surgindo na mente do paciente era indicativo da possibilidade de estarmos diante de um pensamento selvagem? Estaria o paciente assolado por estados de mente primordiais, inalcançáveis, e que não conseguia expressar simbolicamente? Um estado emocional assustador vivido na fronteira entre corpo e mente, proto-pensamentos? Um elemento beta que não pôde ser acolhido, transformado e precisaria ser evacuado? Ele estaria sofrendo no corpo através de sensações, evacuações, estados de mente (vestígios?) aterrorizantes que precisariam ser evacuados?


Bion (1977, p. 60) diz: “O passado não é importante, porque nada pode ser feito a seu respeito; as únicas coisas sobre as quais podemos fazer algo são os restos, ou vestígios do passado, sejam eles estados de mente ou partes arcaicas de nossa constituição física (fendas branquiais, a caudas vestigiais, etc., em suma, nossa ancestralidade simiesca). É possível usarmos estes vestígios discerníveis no presente, desde que nos permitirmos discerni-los.” E mais adiante (p. 61): “Meu interesse está em observar algo mais, estar aberto para algo novo: vestígios mentais”. Vestígios mentais? Terror? Culpa?


Junqueira e Braga (2009) nos ajudam na conceituação da consciência moral primitiva. Dizem eles: “Em nossas elaborações, identificamos quatro hipóteses fundamentais conjugando-se na configuração “Consciência moral primitiva”, que nos trazem necessidades de aproximações com as teorizações psicanalíticas: (1) o feto experimenta diferentes sensações (proto-emoções e proto-ideias) com a qualidade terrifica, sendo capaz de registrá-las no cérebro, mas sem dispor de uma mente para com elas lidar. A qualidade terrifica seria o registro desta inundação, vivida como aniquilação do que é sentido como a vida; (2) Forma-se um núcleo de registro destas experiências de “nadificação”, cuja estimulação passa a ser imperiosamente evitada. Para tal, forma-se uma entidade proibitiva, uma moralidade primordial, que tenta impedir a revivificação destas experiências; estes registros terríficos são vivificados em posteriores experiências de possíveis transgressões às imposições (alucinadas) de uma entidade primitiva, predatória e arbitrária – uma moralidade primordial; (3) o mecanismo da identificação projetiva já está disponível ao feto em desenvolvimento; e (4) ocorre uma cesura, ligada ao nascimento, que torna estes registros primordiais inacessíveis à mente que se desenvolveu, com as qualidades de consciente/ inconsciente.” p.27


Estamos diante de uma dimensão de mente inacessível, que opera na fronteira entre corpo e mente e da qual encontramos vestígios nas “associações” do paciente. Será que esses vestígios, “pensamentos” não poderiam ser um conhecimento inconsciente que irrompe na mente? Esta é uma conjectura fundamental que proponho pensar com vocês.


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Referências:


Bion, W. R. (1976). Emotional Turbulence. F. Bion (Ed.). Clinical Seminars and Four Papers pp.223. Abingdon: Fleetwood Press, 1987.


__________(1976) On a Quotation From Freud. F. Bion (Ed.). Clinical Seminars and Four Papers pp.234. Abingdon: Fleetwood Press, 1987.


__________(1976) Evidence. In:  F. Bion (Ed.). Clinical Seminars and Four Papers pp.239. Abingdon: Fleetwood Press, 1987.


__________(1977) “Taming wild thoughts”, tradução publicada pela editora Blucher 20016. Domesticando Pensamentos selvagens..


__________(1979). Making the best of a bad job. In:  F. Bion (Ed.). Clinical Seminars and Four Papers pp.247. Abingdon: Fleetwood Press, 1987.


___________(2000). Cogitações. Rio de Janeiro: Imago Ed.


Brito, Gisèle (2002).Elementos β como Fator de Disfunção e Evolução no Campo. Rev. Bras.Psicanál.,36(2): 333-357.


Freud, S. (1912). Notas Sobre o Inconsciente em Psicanálise. E. vol. XII, Imago Ed, Rio de Janeiro 1970.


Junqueira & Braga (2009) Consciência Moral Primitiva: um vislumbre da mente primordial. Trabalho apresentado no Encontro Internacional de Bion 2009 em Boston. Publicado em Inglês: Growth and Turbulence Container/Contained. Bion Continuing Legacy-2013. Edited by Howard B. Levine and Lawrence J. Brown. Também publicado Revista Brasileira de Psicanálise, v. 43 (3). Junqueira & Braga





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Pensamentos SelvagensUma abordagem conceitual e clínica 


Darcy Antônio Portolese, 


Médico psiquiatra e Analista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo 


A experiência analítica, a coisa em si, a coisa básica, a coisa fundamental, é algo que vale a pena preservar e,portanto, que se possa comunicar às pessoas na semana que vem, no ano que vem, no século que vem e talvez até trezentos ou quatrocentos anos depois. A ideia não é informá-las mas sim habilitá-las a entrever os tipos de veredas do pensamento que se estenderão diante de nós, provavelmente por muito tempo, se algum de nós ainda estiver presente para enxergar. (Pensamentos Selvagens, pág. 47 e 48) 


Penso que este livro sintetiza uma vida de profunda experiência e transformação do Método Psicanalítico em relação ao seu Objeto, propriedades e conteúdos. Os pensamentos Selvagens representando um patrimônio com seus potenciais a serem conhecidos e desbravados dentro de uma esfera humana e científica. 


Se tomarmos, por exemplo, o mito da tumba de Ur: “Refere-se aos saqueadores desta tumba em busca de um rico tesouro: A nobreza foi enterrada junto com as riquezas da Corte, e junto deles os membros de serviço que foram enterrados vivos com as riquezas.” Trata-se de uma analogia que remete à ideia de um espaço que contém elementos vivos e mortos indiferenciados. Este enfoque me parece representar um eixo do pensamento de Bion, onde o cuidado da vida psíquica a ser resgatada e desenvolvida no processo de análise. Vejamos:  


“... pg. 51: A sabedoria que jaz rapidamente adormecida nas moitas; por vezes enterrada não só literalmente sob os montes de terra do Zigurat, ou no cemitério de Ur dos caldeus ou Cnossos, ou mesmo no oráculo de Delfos?”  


Na conferência de Paris (1978) Bion enfatiza a questão explicitada neste livro quando se reporta à atenção do analista ao surgimento de uma fagulha que assoprada poderá gerar uma chama, onde a presença e a atenção constante como um vigilante guardião que traz ao analista uma grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo um sentido de esperança diante do Desconhecido, que sob o manto dos pensamentos selvagens revela “algo em potencial”  a ser desvelado, transformado e vitalizado.  


A construção da Grade (1963), publicada juntamente com os Pensamentos Selvagens (1977) e aqui nesta publicação, me parece sintetizar dois momentos, mas uma linha contínua de desenvolvimento da Intuição praticada no uso e exercício deste instrumento desenvolvido por Bion.  Na Grade Bion parte dos elementos mais arcaicos constitutivos da mente (os elementos β) que serão transformados em elementos α o que na sua base revela a íntima conexão do poder transformador da relação analítica. Na Grade os elementos β ocupam o ápice do eixo genético vertical. O exercício da Grade onde o analista utiliza dados da sessão, na ausência do objeto permite desenvolver sua intuição. A Intuição ocupa na obra de Bion um ingrediente vital. Em Aprendendo da Experiência (1966), no cap. XXII ele assinala que a investigação deve se processar com um pé na Experiência e o outro através da Intuição dando espaço para a imaginação, aonde os ingredientes emocionais vão fertilizando o campo para desenvolver Conhecimento.  


Creio que aqui a Experiência emocional passa a ser o ingrediente essencial no campo do desenvolvimento do Conhecimento. Em Transformações (1965), no cap. VI Bion formula: “O narcisismo insatisfeito impede que o amor se estenda aos objetos...”. Fica implícito que o Narcisismo para ser satisfeito, ou para que o alimento emocional que necessita para o desenvolvimento venha da experiência emocional através do contato. Numa Jornada em São Paulo o tema era “Afinal, o que é a experiência emocional?”. Lembro-me disto para enfatizar este componente essencial onde se apoia a Construção do Método de Bion. Penso que esta questão é extraída do pensamento de  um filósofo importante que influenciou sua obra conceitual, que é o conceito de “Coisa em Si” de Kant. Ele conceitualiza a “coisa em si”, como algo que não podemos entrar em um contato direto, mas podemos pensar a respeito dela. Entramos aqui também num conceito utilizado por Bion de Conjecturas Imaginativas, presente neste livro. 


O Método de Bion mergulha em águas profundas, ou melhor, seu Método permite mergulhar em áreas profundas da Mente. Por exemplo,  


... há uma continuidade entre o feto a termo e a criança, ainda que a continuidade seja tanto mantida, como quebrada por aquilo que aparenta ser uma Sinapse, ou diafragma ou tela, de tal modo que o pensamento primordial do feto é projetado nesta Cesura e se reflete, partindo da criança para seus níveis mais primordiais de pensamentos e sentimentos. Através desta membrana permeável, existe um contato em ambas as direções; a cesura é um espelho transparente...”.(Conversando com Bion: Bion em Nova York e em São Paulo, Imago, 1992) 


Vale salientar o respeito de Bion pelos psicanalistas fundadores da Psicanálise: A ampliação que realiza na citação anterior sobre o Narcisismo (Freud), que contem também o conceito de Posições em Melanie Klein, quando se refere sobre o amor se estender aos objetos.  


Sua preocupação se estendeu a questões ligadas à saturação expressa na disciplina da memória e desejo, assim como que a Ciência conhecida não sature ou possa engessar o desenvolvimento diante do Desconhecido, elemento obstrutivo do Conhecimento.  


Em Aurora do Esquecimento, da Trilogia Memória do Futuro (1979), citaremos um trecho significativo: 


P.A. ... E o Juqueri (manicômio)... - Já que a Razão foi um Diretor muito ruim. As assim chamadas leis da lógica eram uma receita para o caos. Não deixaram nenhum espaço para a vitalidade. Mesmo hoje ela seria uma natimorta, caso não tivesse encontrado refúgio, naquilo que Alice chamaria loucura, ou –  


P.A. Todos os institutos são mortos, portanto como todos os objetos inanimados, seguem as leis e subleis e são compreensíveis dentro do limite do entendimento humano. Entretanto, como estas Instituições são compostas de pessoas e indivíduos, que são suscetíveis de desenvolvimento, a Instituição começa a ceder à pressão. 


A Termo: O meu útero também fez isso, tive disso o bastante. O meu medo de ter a minha vida extorquida me compeli a compelir o útero a se submeter à minha contra-pressão. 


P.A – Antes uma ciência descartável, do que uma religião que não é. Não tenho maior dificuldade com uma teoria científica do que a dificuldade de um inseto com a forma da qual ele irrompe. Admito que alguns de nós têm ideias como exoesqueleto. 


Doutor – Os cérebros que idênticos a canais alimentares emitem fatos onde se esperariam ideias, ou mesmo “Fuga de ideias”. Quando seriam necessários pensamentos, pensamentos articulados. 


P.A – Penso que o problema é premente quando as articulações são tão rígidas que o indivíduo não pensa. Emprestando um pouco da terminologia médica do meu amigo: Uma osteoartrite psíquica. 


A obra de Bion caminha em direção ao exercício e aprofundamento do desenvolvimento da Intimidade. Transformações em O representam uma evolução conceitual, porque inclui a experiência emocional como alicerce das construções.  Em Experiências com Grupos (1961), nos Supostos Básicos ele indaga: “Para onde olham as plantas? Porque olham para o Sol? Que componentes são necessários para a Fotossíntese ou a Fonte da Vida? A mesma questão se coloca para onde olhamos ou deixamos de olhar para a essência do contato analítico? E se Bion estivesse vivo penso que responderia “Leiam a Tempestade de Shakespeare, conversem com Caliban, o Selvagem proprietário da ilha 


 


Repercussões na Clínica 


                                           A descrição clínica se baseia na experiência  com dois pacientes (paciente A e B )  com longos anos de análise, cujas análises ainda continuam.  Creio ter sido possível acessar camadas profundas da mente de cada um,  que podemos descrever como contactar com áreas profundas, primitivas que permitiram desenvolver  vínculos  criativos, que foram responsáveis pelo desenvolvimento emocional de cada paciente. Graças ao desenvolvimento de uma “familiaridade “ com a obra de Bion estas construções foram possíveis. 


 


Paciente A: “A história de duas bactérias” ou o fenômeno da Fagocitose: Paciente com aproximadamente 35 anos. 


Nesta sessão o paciente inicia falando de vivencias que havia tido com dois relacionamentos afetivos. Fala de suas experiências iniciando com “Eu” e continua manifestando suas teorias. Continua discorrendo e vou sentindo certo “mal-estar”, e aos poucos vou me dando conta que eu havia sido incorporado e engolfado na sua forma de pensar, emergindo uma área de indiferenciação entre nós. O “Eu” tornou-se “Nós”. Suas ideias e pensamentos também eram atribuídas a mim. Pensei nesse fenômeno observado como o fenômeno da Fagocitose, onde uma bactéria se aproxima da outra, emite pseudópodos e engloba outra. “O outro lado da cesura revelou uma forma de pensamento primitivo, equivalente a nutrição de organismos indiferenciados como certas colônias de bactérias, me parecendo a expressão característica de uma forma de vinculação do tipo parasitário”. 


Pouco tempo depois o paciente revela sentir uma dor fina, e um sentimento de vazio e de solidão. Penso ter desenvolvido uma separação entre ele e o outro, na medida em que o objeto não é mais englobado como um objeto de posse e de domínio. A evolução da análise demonstrou uma desconstrução de uma configuração mental alucinatória, geradora de um pseudo-preenchimento emocional. 


 


Paciente B: “A Amora, o ovo gravídico e a Mórula”: paciente com aproximadamente 30 anos. 


O paciente chega alguns minutos atrasado, cumprimenta-me amistosamente e deita-se no divã. Em seguida fala do pai num tom de preocupação, pois o mesmo estava queixando-se que estava ficando velho e cansado. Continuando a sessão o paciente estava falando de um ruído de vozes que vinha do andar de cima de sua sala de trabalho, onde uma agência de manicures funcionava. Ele ficava irritado pois deixava a porta entreaberta e o ruído chegava até sua sala. Conta que todos os dias almoça e senta-se em uma poltrona em seu escritório, e com frequência se masturba e tira um cochilo ... com o passar do tempo, ouvindo o paciente começa a surgir na minha mente uma imagem onírica que adquire a forma de um broto, que adquire a representação de uma Amora, algo encistado, colado a um tecido que me sugere um Ovo gravídico, aderido a uma parede uterina e posteriormente uma mórula (...em Embriologia a mórula é o primeiro estágio de desenvolvimento de embrião dos animais). Digo ao paciente que parecia estar nascendo entre nós, o embrião de algo vivo, um vínculo de fertilidade...! 


O paciente se surpreende com a minha observação e fala também achar curioso que daquilo que contou, surgisse algo ligado à vida, e percebo surpreso diante do inusitado, de algum inefável ocorrido neste encontro. 


A tríade Amora – ovo gravídico - Mórula passam a representar os estágios primordiais da vida mental que emergiram  “das águas profundas do contato emocional” e adquirem uma representação e linguagem, que proporciona a  criação de um alfabeto vincular. 

 


O Fundamental e o Possível na “Forma da Água” 


Dialogando com o livro Domesticando Pensamentos Selvagens de W. Bion 


Sandra Luiza Nunes Caseiro 


O que é fundamental para um analista estar de forma substancial com seu analisando? A “dimensão do possível” abarca o “território do fundamental”? Estes são questionamentos perenes em toda a obra de Bion. Questões que não encontrarão uma afirmativa ou negativa. Bion também não nos deixou respostas. Não seria o Bion se o fizesse. Mas nos apontou a rota que navegou: perscrutou sua própria mente deparando-se com múltiplas dimensões e com diversos territórios. Um dos territórios que explorou foi o dos “Pensamentos Selvagens”, um manancial de novas possibilidades. É sobre este território que tecerei alguns comentários, talvez óbvios.  


Tudo o que é selvagem pode ser sentido como ameaçador. Como se preparar para lidar com “pensamentos selvagens”? O que é estar preparado? Se para enfrentar um clima frio, roupas quentes. Se para saciar a fome física, alimentos. E para um analista estar de forma substancial com seu analisando? 


Acredito que aproximar-se do “território dos Pensamentos Selvagens” requer como primeiro movimento abster-se de qualquer vetor mental. Deixar-se ir, sem saber para onde, e deixar vir, seja o que for. Alcançando este estado mental, talvez nos deparemos com muitos pensamentos flutuando pela mente, pela sala. Quais serão os “selvagens”? 


“Selvagem” não se refere a alguma característica do pensamento em si. Não se trata de um pensamento animalesco ou primitivo, necessariamente. O adjetivo “selvagem”, aqui, abarca qualquer qualidade de pensamento: primitivos, animalescos, psicóticos, até pensamentos muito sofisticados. Pois, “Selvagem” está iluminando algumas particularidades do vínculo que estabeleço com o pensamento, o “entre” mim e o pensamento. O pensamento me encontra ou eu o encontro e num improviso tomo consciência dele. No instante do “improvisado conscientizar-me” do pensamento, posso senti-lo como uma insignificante sombra na linha do horizonte que nem mesmo saberia afirmar se realmente a vi, ou como uma tsunami que me apavora e da qual afasto-me rapidamente. Desde a “sombra na linha do horizonte” até a “tsunami” existe um espectro de diferentes possibilidades para a qualidade do vínculo que estabeleço com o pensamento. Caso eu consiga formular perguntas, o pensamento observado pode revelar-se como um novo espécime, como um fóssil, enfim, posso me aproximar e formular conjecturas imaginativas sobre ele.  


Tomarei como metáfora do nosso assunto o ganhador do Oscar 2018 de melhor filme “The Shape of Water”, do diretor Guillermo del Toro. O filme em si é uma fonte abundante para metáforas de vários vértices estudados pelos psicanalistas e da obra de Bion. Mas me deterei ao nosso “pequeno” vértice: os “Pensamentos Selvagens”. A história se passa em meio à turbulência das transformações sociais ocorridas nos Estados Unidos e os conflitos políticos e bélicos entre as grandes potências da década de 60.  Um homem anfíbio (Doug Jones) é capturado nas águas dos rios da Amazônia por Coronel Strickland (Michael Shannon) e levado para um laboratório nos Estados Unidos, onde seria estudado pelo cientista Hoffstetler (Michael Stuhlbarg), que também era um espião russo. Nesse laboratório trabalha na equipe de limpeza Elisa (Sally Hawkins), muda desde o nascimento e muito amiga e vizinha de Giles (Richard Jenkins), que é homossexual. No trabalho, a melhor amiga de Elisa é Zelda (Octavia Spencer), que é afrodescendente.  


Aqui, o homem anfíbio é nosso “Pensamento Selvagem” e os outros personagens comentados serão tomados como representantes de possíveis estados mentais que podemos revelar quando diante do mesmo. Coronel Strickland  captura o homem anfíbio de forma predatória, desrespeitosa e agressiva, guiado por intensos desejos de poder. Não se importa com o que capturou, se é vivo ou inanimado, se sente dor, se sofre. Importa-lhe se “a coisa” lhe trará mais poder. Zelda, a funcionária afrodescendente, percebe o homem anfíbio de forma tênue, não se envolve com o mesmo e segue sua vida sem transformações na mesma. Hoffstetler, o cientista, apreende que o homem anfíbio é um espécime desconhecido, sente respeito e curiosidade por ele, vislumbra quão rico seria estudá-lo, mas não consegue escapar da rede (em alguns seminários Bion utiliza o termo “Voga”) que o envolve: espião russo, conflito entre potências. Elisa, durante toda a história, mostra-se mentalmente livre. Seus melhores amigos são Zelda e Giles, cujas particularidades (afrodescendente e homossexual) os tornavam alvos de intensos preconceitos, não existentes em Elisa. Com uma curiosidade ingênua, busca aproximar-se do homem anfíbio com respeito, quer conhecê-lo, quer comunicar-se com ele. Sua aproximação transforma-se numa parceria. Elisa e o homem anfíbio transformam-se num casal criativo, cujo vínculo oferece a cada um a possibilidade de tornarem-se genuinamente o que sempre foram. Coronel Strickland está num estado mental carregado de desejos, o que o leva a profanar seu encontro com o homem anfíbio. Zelda está numa certa indiferença, talvez desejosa de que nada mude. Seu maior envolvimento com o espécime acontece a partir de seu vínculo com Elisa. Hoffstetler alcança clareza do evento, mas não consegue libertar-se do conhecido contexto que o envolvia. Elisa está livre para conhecê-lo tolerando dúvidas, medos e a possibilidade de nunca mais ser a mesma pessoa. 


Para o meu “pensamento selvagem”, não me agrada o termo “domesticando” para o qual o original taming foi traduzido em português. Pois não é bem que ele se transforma em meu cativo. Eu é que me transformo em hóspede de seu habitat. Como um domador de cavalos selvagens ou a faxineira do aquário de um homem anfíbio, tenho a portunidade de estabelecer um vínculo de respeito com a selvageria, a força, o novo, a diferença do outro. E nessa qualidade de vínculo, ao retornar para territórios mais familiares, elaborar uma linguagem,  uma tradução da aventura publicável para mim e para o outro. 


Não importa a história chegar a um final, importa o movimento e a direção do movimento. O casal “Elisa e o homem anfíbio” é um bom representante do que é fundamental numa sessão de análise, nem sempre cabendo na “dimensão do possível”. 


 


Sandra Luiza Nunes Caseiro 


Psicanalista ME da SBPRP 


sancaseiro@gmail.com

Pensamentos Selvagens  


Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro 


Como sabemos, o texto que chamamos de "Domesticando Pensamentos Selvagens" (Bion, 1977) foi concebido em 1977 na forma de uma conferência a ser proferida em Roma, Itália. Bion a gravou em fita K7 como preparação para a palestra e, anos depois, sua esposa Francesca editou a gravação e publicou o texto no livro homônimo. 


Nesta época, Bion já estava no final de sua vida e de sua obra, faleceria dois anos depois, em Oxford, Inglaterra, aos 82 anos, vítima de uma leucemia fulminante que lhe acometeu no meio de uma viagem de férias à Índia, sua terra natal. Deste modo, podemos conceber este precioso texto como uma espécie de herança que ele nos deixou, um legado sobre como ele experimentou a ciência que nos foi trazida por Freud – a Psicanálise - e a desenvolveu de forma absolutamente pessoal e singular ao longo de sua vida. 


No texto, em um tom relaxado, reflexivo e meditativo, Bion se apresentou para sua plateia imaginária “jogando tempo fora”, pensando de uma forma “quase descuidada” para, após flanar suficientemente, a esmo, sem direção, então verificar o produto de sua “pescaria ociosa”. Entretanto, como refere Francesca Bion na sua Introdução ao texto, “estas cogitações verbais estão longe das ruminações preguiçosas de um sonhador diurno, elas são claras, perspicazes, disciplinadas e coloridas com seu sutil senso de humor pessoal.” Segundo ela, “é assim que os pensamentos selvagens ganham domesticação e que os pensamentos extraviados ganham um lar.” 


Como possível modelo para nosso estudo preparatório para o Congresso Internacional, vejamos um fragmento do texto (pág. 24, da tradução de Junqueira Filho): 


Como podem ver, eu já estou de novo me metendo em dificuldades, por isso gostaria novamente de pinçar alguma outra categoria para testá-la no acolhimento de qualquer pensamento. O mais próximo que consigo imaginar isto, seria aquilo que os músicos conhecem bem e por isso desenvolveram com competência.  


Quando criança, lembro-me de ter visto um animal no zoológico: ele estava raspando seus chifres nas grades da jaula. O aspecto peculiar desta criatura é que ela mantinha sua atividade ritmicamente. Era algo extraordinário, tanto que chamei a atenção de um adulto que me acompanhava, aliás, um homem bem sensível, e ele concordou tratar-se claramente de um ritmo definido que, inclusive, poderia ser inscrito numa partitura. 


Sinto-me ainda eletrizado por estas comunicações rítmicas. É fascinante ouvirmos a apresentação de um conjunto de percussão: isto causa em mim o mesmo efeito de um poeta ao referir-se à “música magnifica de um tambor distante” (“O Rubaiyat de Omar Khayyan”). 


Na guerra, lembro-me de ter sido impactado de maneira impressionante quando ouvi a música distante das gaitas-de-foles de uma Divisão de Highlanders que iria nos acompanhar em batalha. Desde então, ouvi muitas espécies diferentes de músicas, inclusive aquela descrita por Osbert Lancaster, denunciando a presença do Exército Britânico, ou seja, “fragmentos de sons desafinados”. 


Quando ouvi pela primeira vez a música de Stravinsky para o balé Petrushka, senti tratar-se de algo incompreensível e pouco agradável, mas muito sofisticado. (...) 


Estou gastando tempo à toa pensando deste jeito, ou seja, um pensar quase ausente. Se na minha infância eu tivesse sido surpreendido neste estado, alguém poderia ter dito: “Vê se vai trabalhar, vagabundo!”. 


Por ora, vou dar uma olhada na minha pescaria para ver se peguei algo na rede da minha ociosidade. (Bion, 1977) 


Neste fragmento, um de muitos desta qualidade, podemos observar Bion flanando. Flanar é um verbo originário do francês flâner e pode ser descrito como um caminhar sem destino certo, um andar sem rumo, de modo ocioso, sem coisas com as quais se preocupar. É esse clima emocional que remete ao que Francesca habilmente chamou de “ruminações preguiçosas de um sonhador diurno”, mas que de preguiça mesmo, não tem nada! Penso ser fruto de um trabalho de grande disciplina clínica desenvolvido pelo autor. 


Nesta linguagem, ele nos comunica através da experiência da leitura, em forma viva, ao vivo e em cores, o seu método de observação dos fenômenos mentais: flanando, o autor nos demonstra ‘clinicamente’ o que desenvolveu teoricamente com o termo “opacidade de memórias, desejos e necessidade de compreensão imediata” (Bion, 1970). Sem rumo certo, vagando por entre pensamentos selvagens ou extraviados, de repente Bion se encontra na dimensão ‘criança passeando num zoológico’, no qual um animal estava raspando, ritmicamente, seus chifres nas grades da jaula. O que é isso? Um devaneio? Uma atividade devaneante –K? Uma resistência do analista? Qual a relevância de tal lembrança? 


“Animal”, somos todos nós, animais-racionais, portadores de uma dimensão da mente absolutamente primitiva, simiesca, herdada de nossos ancestrais macacos ou neandertais. Mas em Psicanálise isso não é teoria antropológica, e sim um sinalizador, uma evidência de estados protomentais em cena. Como? Através dos ritmos! Somos animais rítmicos por excelência e, desde de dentro do útero de nossas mães, talvez uma de nossas primeiras percepções seja alguma qualidade de ritmo cardíaco, ou ritmos intestinais, ou de pressões em fossas óticas... Os músicos desenvolvem essas áreas rítmicas com talento, mas e nós analistas? O que fazemos comisso? 


As gaitas-de-foles de uma divisão de guerra escocesa, os Highlanders, anunciam a futura batalha sangrenta: seria uma premonição (uma pré-emoção2) da erupção no setting de dinâmicas assassino-suicidas? Tropismos de morte? Talvez... Mas os sons sonhados vindos de um conjunto de percussão, o Olodum de Salvador-BA, poderiam nos remeter ao fervor de um coração em estado de “amor ardente”3? Nestes casos, seria nosso parceiro(a) na sala de análise nosso aliado nestas observações ou nosso inimigo de batalha? Estaríamos num ‘casamento’ ou numa ‘guerra’? 


Igor Stravinsky, no o balé “Petrushka”, apresentado pela primeira vez em 1911, nos conta uma história de amor, ciúmes e inveja entre três bonecos: Petrouchka (Pedrinho, em russo), a Bailarina e o Mouro. Os três ganharam vida graças ao Mágico. Petrouchka lamenta seu sofrimento por estar aprisionado em um corpo de boneco e dever obediência ao Mágico. Ele ama a Bailarina, mas ela o rejeita, por ficar assustada com suas inquietações existenciais, preferindo o Mouro. Petrouchka fica furioso e magoado e desafia o Mouro. No duelo, o Mouro acaba matando Petrushka, cujo fantasma se levanta sobre o teatro de bonecos quando a noite cai. Ele vem para assombrar o Mágico, que foge assustado, enquanto a figura de Petrushka cai inanimada uma última vez. - Bion descreve a música deste balé como “incompreensível e pouco agradável, mas muito sofisticado”. Stravinsky é considerado um artista impressionista. Os impressionistas revolucionaram o establishment (Bion, 1970) artístico de sua época: abandonaram os ritmos e formas já conhecidas a acrescentaram na pintura e na música suas impressões/emoções do momento, descompromissados em manter uma melodia harmônica e agradável ao ouvinte. Criaram des-ritmos, rupturas da continuidade melódica, sons desafinados perturbando a cena. Seria uma pré-emoção de angústias catastróficas? Seria o prenúncio de uma cesura criativa inédita? A alvorada de um “pensamento sem pensador”? 


Bion vai nos contando suas conjecturas imaginativas e então exclama que alguém (do establishment) poderia ter dito: “Vê se vai trabalhar, vagabundo!”, ao que ele complementa, em seguida, que dará uma olhada na sua “pescaria” para ver se pegou algo na sua “rede de ociosidade”. Oras, então, ele já estava trabalhando!  


Na clínica psicanalítica, quando estamos bem e suficientemente analisados, sonhamos livremente em busca de “pensamentos selvagens”, que são como peixes soltos no mar, ou borboletas soltas no ar. Nossa rede de ociosidade é como uma tarrafa lançada no campo interpessoal. Vez por outra vamos lá ver se pescamos algo valioso... algum pensamento selvagem, ou mesmo um que, porventura, já tenha tido algum dono, mas que estava perdido por aí, extraviado... 


Penso que pensamentos tem uma natureza e um status; por natureza de um pensamento quero enfatizar sua origem, genealogia, qualidade essencial e disposição inata; por status, quero indicar a posição ou a situação de um determinado pensamento num momento específico. No texto “Domesticando Pensamentos Selvagens”, Bion nos apresenta uma série de conceitos sobre a natureza e o status dos pensamentos. Segundo Bion, os pensamentos podem ser: 



  • Pensamentos ‘com proprietário’, ou seja, eles têm um nome, uma data de nascimento e um endereço anexados a ele. Exemplo: “Rêverie” (Bion, 1962), ou “Lei da Gravitação Universal” (Newton, 1687) ou “Posição esquizoparanóide” (Melanie Klein, 1946). 

  • “Pensamentos extraviados” (Stray Thoughts), são pensamentos perdidos por aí, sem dono, vagando como um cachorro andarilho que se perdeu do ‘caminhão de mudança’. Pode já ter tido um dono, ou mais de um, mas sua ‘etiqueta’ (a referência bibliográfica) se perdeu, quem o encontrar e puder dar-lhe acolhimento, poderá fazer algum uso dele. 

  • “Pensamentos Residentes” (Resident Thoughts), são aqueles que nos habitam costumeiramente, com os quais estamos afeitos a pensar as coisas desde crianças, quer apropriadamente ou não, mas que já nos são familiares e estamos acostumados a eles. 

  • “Pensamentos Selvagens”, que são aqueles que para nós não tem ‘dono’ e nem nunca tiveram, de certa forma são pensamentos que vagam por aí, perdidos na atmosfera do planeta, na atmosfera de nossas mentes e mesmo de nossos corpos; eles eventualmente podem vir a ser “domesticados”, tornados ‘do lar’ de alguma maneira, e então podem se tornar um “Pensamento Residente” ou mesmo um pensamento referenciado (com ‘dono’). 

  • “Pensamentos sem Pensador” são “pensamentos selvagens” mais ‘profundos’, que requerem grande capacidade intuitiva para serem ‘pescados’ e, em geral, quando emergem para o indivíduo ou para a humanidade como um todo, mudam o rumo da História. Por exemplo, a Teoria da Evolução das Espécies de Darwin (1859), ou o advento da Psicanálise por Freud (1900). 

  •  “Pensamentos Inacessíveis”, os “estados de mente inacessíveis”, são aqueles que nunca alcançaram ou alcançarão os estados de mente que chamamos de consciente ou de inconsciente, “talvez por ter se tornado inacessível pelo fato do feto poder se livrar dele tão logo lhe seja possível” (pág. 42, 43). 

  • Outros... 


Posto algo sobre a natureza e o status dos pensamentos, resta-nos pensarmos o que fazer com eles... Muitas vezes, ao longo de sua obra, Bion nos recomendou que nos ‘esqueçamos’ deles. ‘Pensamentos esquecidos’?! Não creio que tenha enfatizado essa categoria no seu texto. Neste, ele nos recomendou algo diferente: “O problema diante do brotar de um tal pensamento, é o que fazer com ele: claro, se for mesmo selvagem, se poderá tentar domesticá-lo.” (pág. 20). 


Domesticar é diferente de domar. Domam-se as feras, e é triste quando isso acontece, pois suas almas morrem. “Pensamentos selvagens” podem, na melhor das hipóteses, serem domesticados, ou seja, tornados domésticos, caseiros, familiares, íntimos, “pensamentos residentes”. Mas como fazer isso? Primeiramente, temos que identificar um “pensamento selvagem”. 


Desde Bion, acreditamos que o analista deva procurar se abstrair temporariamente de pensamentos conhecidos, racionalismos, teorias, palavras e etc. Ele chamou isso tudo de “memórias, desejos e necessidades de compreensão imediatas”, e nos mostrou que, estando pré-ocupados com eles, vamos conhecer cada vez mais do já conhecido (dimensões de K e – K), e cada vez menos do novo, desconhecido e não-conhecido (dimensões de O)... Libertando-se destas qualidades (realidade sensorial), o analista pode focar no seu feeling, suas impressões, sua intuição do momento (Ribeiro, 2016), em busca de “pensamentos selvagens”.  


Esta configuração mental foi proposta por Bion em vários momentos ao longo de sua obra, mas está presente, em especial, e de forma mais radical, nos textos da década final desta, por exemplo nos livros "Atenção e Interpretação" de 1970 e na trilogia "Uma Memória do Futuro" de 1991. Constitui-se numa contribuição valiosa, na medida em que apresenta uma nova técnica de apreensão da realidade psíquica, na qual os elementos que já conhecemos do analisando, e de nós mesmos - nossos “pensamentos referendados e residentes” - são convidados a serem deixados em segundo plano, opacificados, abrindo caminho para que a observação das experiências emocionais vivas da sessão (muitas vezes profundamente turbulentas) permitam a captação de alguns "pensamentos selvagens" que porventura estejam ‘circulando’ pela sala, ou pelo setting (que vai além do perímetro da sala de análise, do horário da sessão e das personalidades individuais em questão).  


Os “pensamentos selvagens” não necessariamente urgem para existir, eles apenas existem; e eles não tem relação direta com selva, ferocidade, bestialidade, o que é bárbaro, indomável, etc., são essencialmente humanos e estão à nossa disposição, ao nosso redor o tempo todo, embora não sejam apreensíveis imediatamente e requeiram um estado observacional especial para se tornarem inteligíveis. O termo “selvagem”, penso remeter principalmente ao que nos é desconhecido, não-familiar; é ‘da selva’ no sentido de oposição ao que é ‘da cidade’ (civilizado). 


No livro “Seminários Italianos", (1977, p. 59) Bion nos traz uma bela imagem dos “pensamentos selvagens”, ele sugere que, sob determinadas condições, poderíamos vê-los flutuando pela sala a procura de algum pensador que possa acolhê-los e, porventura, domesticá-los. Eles seriam como borboletas 'borboleteando' por aí, emprestando a metáfora que o colega Luiz Carlos Junqueira Filho usou em seu texto do "Com a Palavra" do site do BION.2018.  


Junqueira Filho (2017) propõe sonharmos o psicanalista "como um naturalista que adentra à selva da vida mental, munido de sua caçapa para capturar os pensamentos selvagens que estejam por ali". Neste sentido de "selva da vida mental", aproxima-se da ideia apresentada pelo colega Cecil José Rezze (2017) que, também no seu "Com a Palavra" do mesmo site, refere que podemos pensar que lidar com um "pensamento selvagem" seria equivalente ao deparar-se com um tigre na selva; o tigre como metáfora do selvagem que habita o animal humano e que necessita tornar-se doméstico, quem sabe, tornar-se um “pensamento residente”, se possível for. E algumas vezes não o é. 


Da violência emocional das 'borboletas' à violência emocional dos 'tigres na selva' - ambos impactantes em sua qualidade de elementos inusitados, inéditos, desconhecidos, que nos pegam de surpresa - os "pensamentos selvagens" estão a nossa disposição, soltos no 'ar' da sala de análise e fora dela, neste auditório, nesta cidade, estado, país... talvez no ‘espaço’ que o filósofo francês Padre Teilhard de Chardin, no livro “O Fenômeno Humano” (1955), chamou de "noosfera".  


Noosfera, em si mesmo, é um exemplo de um “pensamento Selvagem”, que Chardin domesticou e tornou-o referendado: Chardin, 1955. Essa palavra, Noosfera, origina-se do grego nous, que significa mente, e é um conceito que foi apreciado por Bion (López-Corvo, 2003) e aparece citado no Cogitations (Bion, 1992). Na teoria de Chardin, a Noosfera seria a terceira etapa no desenvolvimento do planeta Terra, depois da geosfera (a matéria inanimada, formada a partir de reações vulcânicas e atmosféricas) e da biosfera (a camada de vida biológica que habita o planeta). Chardin propõe algo como uma "esfera do pensamento humano" feita de ideias circulantes, livres no espaço, que estariam sobrepostas à biosfera e à atmosfera e que seria alimentada pelos pensamentos e comunicações humanas realizadas ao longo da História; portanto, não se limitando ao tempo presente. 


Esta ideia não se coaduna com conceitos científicos consagrados, constitui-se numa criativa conjetura imaginativa que tenta domesticar ideias a respeito da natureza dos pensamentos. 4  Neste sentido, o conceito aproxima-se do próprio modelo do pensar bioniano, entendido como um sistema de reflexão aberto, que segue uma lógica baseada em inter-relações múltiplas, não-causais ou circulares, em um constante levantamento de hipóteses (muitas vezes contraditórias) e em consideração às “nuvens de probabilidades” (Bion, 1962); enfim, um método voltado para a sustentação de paradoxos, da incerteza e do não-saber, em acordo com o Princípio da Incerteza descrito por Heisenberg (1927) e o Pensamento Complexo proposto por Edgar Morin. 


Na clínica cotidiana, necessitamos estar constantemente abertos à captação dos "pensamentos selvagens", assim favorecemos o renascimento da psicanálise em cada nova sessão. A própria postura insaturada à qual nos submetemos para capturá-los, constitui-se na fonte de descobertas, criatividade e vigor. Partindo de um vértice científico psicanalítico, nos lançamos à interações qualitativas e quantitativas que desafiam as possibilidades de raciocínio lógico, temos que conviver com incertezas, indeterminações, acasos, caos, vazios, nadas e até mesmo contar com a sorte, para buscar o novo, o desconhecido, o infinito das singularidades do analisando e do analista. 


Arnaldo Chuster (2017), também no seu “Com a Palavra” do site do BION.2018, refere que nossa “tarefa não é dar respostas e nem formular teorias, mas examinar as irrupções das diversas respostas e das muitas teorias em seus respectivos pressupostos de sustentação. O pensador precisa ter e acolher pensamentos selvagens. Na conhecida fórmula socrática “sei que nada sei”, o pensador de fato vive, em tudo que aparece, no não saber. Pois pensar não é saber. Quando se pensa não se pretende saber, e quando se pretende saber não se pensa. O pensador é aquele que não cessa de questionar as raízes em que se encontram e desencontram, numa encruzilhada patrocinada pela busca da verdade.” 


O próprio Freud, gênio que foi, em uma carta ao seu amigo Oskar Pfister (1873-1956) escreveu: "Ora, essas coisas psicanalíticas são compreensíveis se forem relativamente completas e detalhadas, exatamente como a própria análise só funciona se o paciente descer das abstrações substitutivas até os mais ínfimos detalhes. Disso resulta que a discrição é incompatível com uma boa exposição sobre a psicanálise. É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa e queima os móveis para que o modelo não sinta frio. Sem alguma destas ações criminosas, não se pode fazer nada direito". (Mezan, R., 1985, p.19). 


Penso que Bion, no texto em questão, ao nos oferecer o seu método pessoal de domesticação de “pensamentos selvagens” nos ofereceu uma valiosa ferramenta. Ele nunca se propôs a ser modelo de ninguém, tinha mesmo aversão a isso, no entanto, sua generosidade o levou a descrever como ele, pessoalmente, costumava fazer no seu atelier/consultório, onde ele é o próprio artista5. Esse tipo de exposição sobre psicanálise, da forma livre, despretensiosa e insaturada como foi feita, nos permite sonharmos identificações pessoais nossas, desenvolvendo nosso método particular, singular e criativo de “sermos O” em nosso atelier analítico. 


Finalizo evocando o Fernando Pessoa, na ‘alma’ de Ricardo Reis (pseudônimo), no intuito de expandirmos um pouco mais além essas ideias:  


Quer pouco: terás tudo. 


Quer nada: serás livre. 


(...) 


Que os deuses me concedam que, despido 


De afectos, tenha a fria liberdade 


Dos píncaros sem nada. 


(...) 


Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada 


É livre; quem não tem, e não deseja, 


Homem, é igual aos deuses. 


Odes de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1946 (1994).  p. 125 e 126. Recorte/adaptação livre do autor. 


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Referências Bibliográficas: 



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  • _________ (1970). Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago editora, 2006.

  • _________ (1977). Domesticando Pensamentos Selvagens. São Paulo: Blucher Karnac, 2017. 

  • _________ (1978). Conversando com Bion. Rio de Janeiro, Imago editora, 1992. 

  • _________ (1978) Seminário Clínico em Paris realizado em 10 de julho de 1978. In: https://psicanalisedownload.files.wordpress.com/2012/08/w1.pdf  

  • _________ (1991). Uma Memória do Futuro.  Rio de Janeiro, Imago Ed., 1996. 

  • CHUSTER, A. (2017). Com a Palavra.  Site do Encontro Internacional Bion 2018. http://www.sbprp.org.br/bion/2018/com-a-palavra.php 

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  • HEIMANN, P. (1950). On counter-transference. International Journal of Psycho-Analysis, 31, 81-84. 

  • JUNQUEIRA FILHO, L. C. U. (2017). Com a Palavra.  Site do Encontro Internacional Bion 2018. http://www.sbprp.org.br/bion/2018/com-a-palavra.php 

  • KLEIN, M. (1946) – Notas Sobre Alguns Mecanismos Esquizoides. Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago Ed., 1991. 

  • LÓPEZ-CORVO, R. E. (2003). The Dictionary of the Work of W.R. Bion. Karnak Books, 2005. 

  • MEZAN, R. (1985). Freud, Pensador da Cultura. Companhia das Letras, São Paulo, 2006. 

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  • RIBEIRO, M. M. M. (2010). Premonições na experiência analítica: intuição e teoria de observação. Berggasse 19 Revista da SBPRP. Vol. I, Nº 1, Maio de 2010. 

  • RIBEIRO, P. M. M. (2016). O Analista Descons(c)ertado: considerações sobre acessos a dimensões protomentais. Revista Brasileira de Psicanálise, Volume 50, Nº 3, 2016. 

  • TEILHARD DE CHARDIN, P. (1955). O Fenômeno Humano. São Paulo, Ed. Cultrix, 2006. 


 


Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro 


E-mail: pmmr@terra.com.br 

"Vejo com bastante ânimo a mobilização de voces, o que me parece antecipar um Congresso profícuo. Passo a aguardá-lo."


João Carlos Braga


 


"Me parece excelente el tema que han elegido."


Naly Durand


 


"Concuerdo con ustedes tanto en lo que atañe al programa general propuesto, como a la elección del tema oficial del congreso: “PENSAMIENTOS SALVAJES”; ya que tiene mucha relación con los problemas que todos los analistas del mundo enfrentamos en la actualidad."


Jaime Lutenberg  


 


"It will be my pleasure to serve on the scientific committee. The conference is promising to be stimulating and thought provoking."


Afsaneh Alisobhani


 


"Quero parabenizá-los pela criatividade do conteúdo da proposta do Encontro e também pelas novas modalidades de funcionamento do encontro, pelo novo logo da SBPRP e também pelo belo cartaz! Parabéns pela realização do evento e organização primorosa!"


Miriam Moreira Brambilla Altimari


 


"It seems to be a wonderful program!!!! Congratulations."


Alessandro Bruni


 


"Primoroso e estimulante. Parabéns a todos."


Ester Sandler


 


"The theme of the congress is very interesting."


Fulvio Mazzacane


 


"Tenho acompanhado, através de amigos e da correspondência, o belo trabalho que tu e teus colegas estão fazendo para o Bion 2018. Por todas essas informações , estou seguro de que o evento será um grande sucesso e permitirá um frutífero intercâmbio à sombra generosa e estimulante de Bion, que sabemos bem ter encontrado no Brasil um terreno fértil e criativo para o desenvolvimento de suas ideias. Infelizmente, não poderei estar com vocês, por uma série de razões pessoais e profissionais, mas envio para ti , Mércia e demais colegas um abraço afetuoso e os votos de que desfrutem a alegria e os pensamentos selvagens e criativos que esse encontro vai produzir."


Cláudio Eizirik


 


"Have a great and a beautiful, successful and memorable Congress! 

Once again, have a very nice experience and wish you a very well deserved gratitude from all! Warmly,"

 

Monica Horovitz

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