Com a Palavra

A nossa SBPRP irá sediar o Encontro Internacional de Bion em 2018. Visando nos preparar para este evento, faremos um Pré-Congresso que acontecerá de 29 de setembro a 1 de outubro de 2017. O tema deste Pré-Congresso inaugura um novo momento na Psicanálise brasileira, pois pela primeira vez um encontro de Bion irá se dedicar à "Memória do futuro", desde que ela foi traduzida no Brasil por Paulo Cesar Sandler. Até o momento, não havia sido tema de um Congresso. Teremos como conferencistas três analistas que apreenderam com profundidade e criatividade a trilogia “Memória do futuro”, última obra escrita de Bion, legada a nós por sua genialidade.

Paulo Sandler (Brasil), Leandro Stitzman (Argentina) e Annie Reiner (EUA), analistas talentosos, singulares e criativos foram convidados a conversarem entre si e a nos apresentarem suas reflexões sobre "o que faz um psicanalista". Um dos vértices norteadores das conferências e conversas será "o infinito", uma das formulações que Bion concebeu para sustentar a expansão do seu pensamento e do universo da psicanálise. O pensamento de Bion está em profunda sintonia com a complexidade, as contradições e as polaridades que são próprias à busca da existência humana em nossos tempos. Por essa razão, o público desse nosso encontro, além dos psicanalistas, também inclui profissionais de todas as áreas, estudantes e pessoas interessadas e apaixonadas pelas diferentes expressões do existir na cultura humana.

É um evento que oferecerá oportunidades para um diálogo aberto com os conferencistas e para compartilharmos está visão tão instigante de Bion sobre o universo humano, através desta sonda, que se chama Psicanálise.

Pensamentos Selvagens


A obra de Wilfred Bion pode ser comparada a um caleidoscópio, à semelhança com a vida do seu autor. Uma criança nascida em 1897 na Índia Imperial Vitoriana, um estudante de escola pública inglesa no início do século XX, um soldado no Regimento Real de Tanques na I Guerra Mundial, o herói de Guerra condecorado por extrema bravura, um estudante de História Moderna na Universidade de Oxford, um professor de História na mesma escola pública onde estudou, o técnico de natação para crianças, o jogador de Rúgbi, o estudante de medicina em Londres, o analisando de John Rickman, o candidato na Sociedade Britânica de Psicanálise, o terapeuta na Tavistock, o médico na II Guerra Mundial, o grupo terapeuta inovador, o analisando de Melanie Klein, o analista Didata na Sociedade Britânica de Psicanálise, o Presidente dessa sociedade, o analista em Los Angeles, o supervisor e conferencista em várias lugares do mundo, o amigo, o marido, o pai, o escritor, o pensador genial.

Todos esses aspectos produziram um discurso desafiador que, com frequência, na proximidade de entendê-lo, nos faz tropeçar em um pensamento selvagem que nos envia de volta para a estaca zero. Parece que Bion está sempre à nossa frente, desaparecendo de nossa visão. Ou como um caleidoscópio, a cada leitura, uma nova configuração aparece.

Ao longo dos muitos anos de estudos e diálogo com sua obra, me ficou uma direção de pensamento que procuro preservar. Ela sugere levar em conta sua complexidade. Todavia, não sugiro fazer isso literalmente, apenas lendo os muitos autores que temos a nossa disposição, incluindo eu mesmo. Existe até um sedutor dicionário para nos ensinar como devemos ler Bion. Mas Bion não está lá. É necessário ir mais profundamente, ir além de seus escritos, nos deixar levar pelo sentido fundador de sua obra que se instala em nossa própria experiência: o renascimento da psicanálise em cada nova sessão e em cada nova leitura. Precisamos ter pensamentos selvagens para acompanhar esse sentido fundador.

Eu penso que isso significa que a principal ferramenta para entrar em contato com Bion, depende do funcionamento de nossa imaginação. Isso implica, em primeiro lugar, que para encontrar Bion necessitamos refletir sobre a história da imaginação na psicanálise. Precisamos indagar como as ideias de Bion se inserem nessa história, e como em virtude de sua enorme capacidade intuitiva, geradora de ideias avançadas, nos coloca sempre no futuro, cujo acesso se faz apenas pela imaginação. Existe em sua obra uma porta significativa para o futuro da psicanálise. Daí a quantidade de reações ambivalentes que ela desperta diante do medo do desconhecido e da necessidade de prosseguir em lugares escuros e obscuros.

A ideia de complexidade estava presente no vocabulário cotidiano muito mais do que no científico. O significado popular pode denotar um objeto confuso ou algo de difícil compreensão. O vértice científico, graças a Edgar Morin, compreende interações e quantidades que desafiam nossas possibilidades de cálculo, e a convivência com incertezas, indeterminações, fenômenos ao acaso, caos, e até mesmo a sorte. Mais ainda, a complexidade trouxe a existência dos sistemas abertos. Aqueles que vivem num mundo classificatório, ou que dependem de diagnósticos, agem de acordo com sistemas fechados. Se os abrem para incluir algo novo, logo fecham novamente.

Podemos selecionar muitos conceitos desenvolvidos por Bion, alguns mais facilmente visíveis do que outros, como exemplo da relação complexidade sistema aberto. Por exemplo, o modelo espectral partes psicóticas/partes não-psicóticas da personalidade, a teoria do Pensar, o objeto psicanalítico, a Grade, as transformações, Memória do Futuro, pensamentos sem pensador, turbulência emocional, Cesura, simetria, ato de Fé, linguagem de êxito.

Certamente que a psicanálise não pode ser um sistema fechado, mas não podemos negar que existem correntes que a tratem desta forma, algumas explicitamente, outras dissimuladamente.

A prática psicanalítica é compelida a se questionar constantemente e a avançar com o saber que se adquire com a observação. O simples fato, e ao mesmo tempo complexo, de haver pacientes que exprimem sua dor, desafia o psicanalista a se voltar constantemente para os fundamentos da psicanálise: prática, teoria, epistemologia, e ética, se entrelaçam incessantemente.

A psicanálise, diversamente de muitas outras disciplinas está inevitavelmente aberta. Ela é ininterruptamente submetida à prova da verdade que é a escuta daquele que tem dor psíquica e tenta nos contar sobre ela. A escuta do analista tem que se preparar constantemente para essa função, e não importa aqui o montante de experiência do psicanalista. Trata-se sempre do início de uma investigação. Existe algo que é a singularidade e que não permite acomodações.

Com a obra de Bion o psicanalista foi lançado na mesma tarefa do pensador. A sua tarefa não é dar respostas e nem formular teorias, mas examinar as irrupções das diversas respostas e das muitas teorias em seus respectivos pressupostos de sustentação. O pensador precisa ter e acolher pensamentos selvagens. Na conhecida fórmula socrática “sei que nada sei”, o pensador de fato vive, em tudo que aparece, o não saber. Pois pensar não é saber. Quando se pensa não se pretende saber, e quando se pretende saber não se pensa. O pensador é aquele que não cessa de questionar as raízes em que se encontram e desencontram numa encruzilhada patrocinada pela busca da verdade, os caminhos do ser, do não ser e do parecer.

Nas discussões que se realizarão no Encontro Internacional sobre a Obra de Bion 2018, em Ribeirão Preto, o colega participante vai indubitavelmente encontrar o Bion que já é conhecido de muitos, mas sinceramente espero que propicie encontrar o Bion que até agora pode ter permanecido oculto. Minha expectativa é que tenhamos muitos pensamentos selvagens.

Atente-se que o conceito de “pensamentos selvagens” engloba duas questões “complementares”: a existência de “pensamentos selvagens”, (ou “pensamentos extraviados”) e a conveniência de sua “domesticação”.  Qual o significado deste conceito ou deste enunciado? Referindo-se à Grade, Bion nos oferece duas afirmações fundamentais: a de que um enunciado é um elemento que amarra uma conjunção constante e que o enunciado nunca é certo ou errado, mas significativo (p.16)


Acho que a tarefa primeira de uma Comissão que esteja organizando um Encontro como esse, seja “provocar” os participantes já a partir da escolha de sua temática central. Neste particular, creio que estamos muito bem servidos.  Aliás, a própria ideia de “pensamento selvagem” é, em si, um pensamento selvagem.


Mas, retornemos à nossa tarefa principal onde o “psicanalista” é imaginado como um naturalista que adentra à selva da vida mental, munido de sua caçapa para capturar os “pensamentos selvagens” que estejam por ali borboleteando. Bion nos apresenta dois destes espécimes, ambos da classe shakesperiensis: um da espécie cymbelinensis e, o outro, da espécie macbethensis,


Vejamos a estrutura da primeira espécie: “Até rapazes e moças iluminados estão fadados, como os limpadores de chaminés, a virarem pó “(Golden lads and girsl all must/As chiminey-sweepers come to dust - Cymbeline, IV,2). E agora, indaga Bion: “como escavar este conhecimento na esperança de encontrar em algum canto de seu interior um pensamento, ou quem sabe uma sabedoria ali enterrada?”


Nosso primeiro inimigo é a banalização: “Ora, estou cansado de saber que todos nós viemos do pó e ao pó retornaremos!” No entanto, Bion nos informa que Hugh Kenner (1923-2003), um crítico e professor de literatura, ouvindo acidentalmente a fala de uma camponesa de Warwickshire, descobriu um significado inesperado, provavelmente comum na época de Shakespeare: “Os rapazes e moças iluminados” poderiam representar o dente-de-leão que, quando da queda de suas pétalas, fica parecendo a vassoura de um limpador de chaminés, passando, então, a ser chamado por esta expressão.


O segundo exemplo é parte do solilóquio de Lady Macbeth enquanto produzia um arranjo mental, visando justificar seus sentimentos assassinos em relação ao Rei Duncan, para que seu marido ocupasse o trono e ela se tornasse rainha. Ela se encontra no aposento onde o rei deverá entrar para dormir e nunca mais acordar, mas rumina que a natureza do marido, impregnada do “leite da ternura humana”, não o agraciara com um instinto maligno necessário para perpetrar o assassinato que mudaria seu destino.


É, então, que ela enuncia a frase fatídica: “The Raven himself is hoarse that croakes the fatal entrance of Duncan under my battlements” (Macbeth, I, V).


O sentido desta predição é convidar a ave agourenta a ser um porta-voz da trama assassina, instilando na câmera mortuária uma atmosfera tão macabra que até o seu grasnar, normalmente cortante, soaria ainda mais agourento se embebendo de rouquidão. Os elementos chaves desta frase são a rouquidão do corvo e o umbral (battlement) da cena do crime, que criam uma atmosfera de horror e mistério,  nos gerando “sentimentos profundos e eletrizantes”, como assinala Bion.


Ora, o termo battlement pode ser traduzido como umbral, portal ou ameia, aquele vão que encimava as muralhas das fortalezas, permitindo que os defensores disparassem dali sua bestas, mas, ao mesmo tempo, se protegessem: ou seja, uma instância de ataque e defesa. No caso de Lady Macbeth, o umbral, ao ser ultrapassado pelo rei estaria selando o ataque à sua vida, mas, também, urdindo o álibi defensivo criado pelo casal assassino que já arquitetara manchar de sangue as adagas dos camareiros para incriminá-los.


Este umbral, em resumo, simboliza a transformação do leite puro e inocente no leite envenenado pelo fel da maldade (ao invocar os espíritos mortais, Lady Macbeth exclama: “Vinde a meus seios maternais e convertei meu leite em fel,  vós, gênios do crime, do lugar de onde presidis, sob substâncias invisíveis, a hora de fazer o mal!” - trad. Fernando Carlos de A.C. Medeiros).


O envenenamento de um espírito bondoso pela ambição implacável retrata a fragilidade da vida interior face aos assédios sedutores do mundo exterior: na descrição deste processo, Shakespeare valeu-se de um pensamento selvagem que foi domesticado 240 anos depois por Edgard Allan Poe, no seu famoso poema O Corvo.


O tema principal do poema é a devoção imorredoura: o conflito perverso entre desejar esquecer ou lembrar a morte da mulher amada. O protagonista está enclausurado em seu aposento (chamber) torturado por seu conflito, quando escuta uma leve batida em seu portal (chamber door): envolto na atmosfera lúgubre de uma noite glacial ele se sente aterrorizado com a perspectiva de, eternamente (evermore), ficar privado do nome Lenore, sua amada virginal.


Busca, então, suavizar seus temores, valendo-se de um refrão reassegurador (nothing more), ou seja, “nada de mais”: “nada além de um visitante noturno”; ao abrir seu portal, não encontra “nada além da noite”; sussurrando o nome da amada, tranquiliza-se dizendo: “É Lenore, nada além disso!”; inocentando o portal, ele volta-se à janela e acalma-se dizendo: “É o vento, nada mais.”


Mas, ao abrir o postigo com um solavanco, surpreende-se com a presença de um Corvo Majestoso, quem, altaneiro, empoleira-se num busto de Atenas que encimava o portal. Confrontando-se com aquela figura espectralmente repugnante e advinda das trevas plutônicas, o protagonista mecânica e impensadamente, indaga seu nome e, perplexo, escuta: “Me chamo ‘nunca mais’” (nevermore).


A partir deste instante mágico, opera-se uma transformação: o refrão nothing more murmurado pelo protagonista é substituído pelo shibbolethnevermore”, expresso sempre com convicção pela ave. O mistério daquela aparição surreal parece agora predominar, levando o assustado protagonista a conjecturar que sua fala fosse a mera repetição de algum lamento ouvido de um infeliz proprietário: mesmo assim, ainda pairava a dúvida de tratar-se de algum enigma que requeresse decifração.


Desesperado com a inesperada confusão de conflitos, e entrevendo a ave como profeta ou demônio, ele lhe implora pelo fornecimento de algum bálsamo bíblico que aliviasse sua dor e lhe pergunta se, no Éden, ainda viria a abraçar sua amada, mas só recebe de volta um implacável: “nevermore!”.


Tomando esta palavra maldita como símbolo de uma divergência irreconciliável, ele vocifera tentando expulsar o Corvo de sua casa: “Afaste este bico do meu coração, arraste sua sombra para fora do meu umbral” (trad. minha). Mas, novamente, nada ocorreu além do temível “nevermore!”.


Porém, o Corvo permanece imóvel junto a Atenas, seus olhos evocando um demônio sonhando e a lamparina projetando sua sombra no chão. Como epílogo, o protagonista lamenta sua triste sina: “E minha alma nunca mais (nevermore) libertar-se-á daquela sombra flutuando neste chão!” (trad.minha).


Neste exemplo, o pensamento selvagem já não balouça entre a bondade e a maldade, mas entre a esperança e a desesperança, equilibrando-se no umbral que separa o evermore do nevermore, intercalados pelo nothing more transacional. Em resumo, ele nos provoca com “uma espécie de reação mental”, como nos diz Bion (p.29).


Referência


Bion, W.R. (1997). Taming Wild Thoughts. Ed. by Francesca Bion. London: Karnac Books.

BION E OS MACACOS


                                                           Roosevelt Cassorla (Campinas e São Paulo)


Especulando imaginativamente reencontrei o fantasma de Bion (f(B)). Desta vez não me assustei.  Ouvi sua voz, ressoante:  


 "... o ser humano é o que eu chamaria de ‘muito espertalhão'. Alguns animais são espertos, os animais de circo, por exemplo, podem reproduzir exatamente um desfile municipal. Do mesmo modo você pode ter certeza que o paciente será capaz de se comportar exatamente como o analista – e é, em verdade, o que eles aprendem a fazer. O paciente deve apenas continuar a vir por um tempo suficientemente longo, para ter sua ‘pequena ideia’ sobre as diferentes fraquezas e hábitos do analista. Este paciente pode ser exatamente como o analista e cuidar-se exatamente como o analista. (....) Os pacientes, por consequência, preferirão frequentemente se restringir a ser como o analista. Nós podemos ver com que rapidez as crianças absorvem os maus hábitos dos pais. Os maus hábitos do analista se refletem, cada vez, junto aos pacientes e muito rapidamente”[1].


F(B) interrompe sua fala.  Seu silêncio faz com que, ousadamente, lhe indague se sabe que discutiremos sua obra no Encontro Internacional em Ribeirão Preto. Percebo-o contente enquanto fala:  "Mr. Junqueeirra de Mattos", o nome de seu querido paciente ribeirãopretano.


Em seguida me diz "espero que Ribeirão se mantenha Preto". Não compreendo e estou em vias de exasperar-me. Sentimentos comuns quando me encontro com ele. Generosamente, esclarece:  "Há que ficar no Preto, no Escuro,  concentrar-se nele para permitir que surja a luz. Caso contrário aspectos 'espertalhões' esconderão fatos verdadeiros". f(B) não suporta que macaqueiem suas palavras.  Percebo um tom solene quando diz: "macacos imitam humanos e humanos podem tornar-se macacos amestrados com melhor desempenho que macacos".


Receoso que esteja se referindo a mim, reajo dizendo que ele (Bion) nos alertou sobre esse risco. Que nós, bionianos. aprendemos com ele.  Que "...não se preocupe com macaquices de nossa parte". Instantaneamente me arrependo do que disse.


f(B) provoca: "Ah ! Vocês são bionianos ? Não tenho a menor ideia do que isso possa ser. Talvez macacos saibam."  Fico envergonhado. f(B) continua: "Saber que aprenderam comigo não me diz nada. Acontece que se pode eliminar o "a" de "aprender" e especializar-se em "prender", como fazem psicóticos, policiais, ou terroristas antes de matar. Pensamentos selvagens são trancafiados ou explodidos antes que sejam pensados e pensamentos com dono são aprisionados em dogmas".  Compreendo: há que sonhar e sonhar, abrindo espaço para que pensamentos selvagens se espraiem em sonhos que os desafiem a ampliar seu significado.  Que se perca "nome e endereço" dos pensamentos domesticados e que "seus" (Bion) pensamentos sejam vividos como se fossem selvagens, tomando de  assalto nossa imaginação.  


Não arrisquei dividir essas ideias com f(B) por suspeitar que ele ficaria bravo e me diria: "Que petulância – perder meu nome e endereço ? Isso é roubo. Tenho ouvido falar desse hábito em seu país. Agradeço por alertar-me, ainda que nada possa fazer porque não estou mais vivo".   


Em seguida a sombra de f(B) se afasta confundindo-se com o nevoeiro de meu sonho. Acordo assustado.  Arrependo-me de não ter refutado a acusação de roubo. Falaria em "escavar túmulos, desoterrar, desenterrar". E lhe leria ele-mesmo: "... a sabedoria jaz rapidamente adormecida nas moitas; por vezes enterrada não só literalmente sob os montes da terra do Zigurat, ou no Cemitério de Ur dos caldeus ou Cnossos, ou mesmo no Oráculo de Delfos ? Essa voz será audível de algum jeito"[2]. Petulante (agora sim) lhe diria:  temos que "roubar" os pensamentos e apropriar-nos deles. Tomar para nós a herança de nossos pais. Mostraria que também sou erudito, ao citar Goethe-Freud.


Ao perceber minha inveja pude viver gratidão e sentir-me Eu-mesmo.  Gostaria de mostrá-la e lamentei que f(B) tivesse desaparecido.  Mas, o nevoeiro retorna e f(B) reaparece. Diz: "O difícil esboço de gratidão fez você despertar. Traumas são ilusões que demandam trabalho de sonho.  Seres humanos (e macacos) não gostam de perceber  a complexidade das emoções, da vida. Muitos alucinam que se constituíram por si mesmos e perdem a oportunidade de transformarem dívidas em graça, gratidão. Bons pais doam vida, sonho, se tornam ricos. Culpa pelo suposto roubo bloqueia capacidade de sonhar. Inveja."   


Percebo que f(B) tinha algo mais a dizer. "Ribeirão é água em movimento, o que vemos não está mais lá e o que está lá não vemos mais. Psicanalistas aprendemos essa obviedade". E completa: "Ribeirão". Que continue "Preto", para que imaginação se ilumine.   


Desperto pensando em relações contratuais, próprias de macacos sabidos. Devaneio com "espertalhões" que se identificam adesivamente com "poderosos" de plantão. Coluna 2, quinta coluna espionando criatividade para destrui-la. Escuto ou alucino a fala de f(B):  "....supostos básicos paralisantes, que me fizeram buscar Los Angeles. Freud teve que sair. Eu e Meltzer escolhemos. Há que decidir, como na guerra:  lutar, vencer ou morrer, ou ir embora..., começar de novo"..


Emociono-me. Lembro-me de um colega tcheco contando: "Quando se abriram as fronteiras muitos chegavam, de carro, até onde antes ficavam os guardas de fronteira.  Paravam e não conseguiam ir adiante".


Teria gostado de ouvir f(B) nesse momento. O espaço da escrita terminou. Espero que f(B) retorne. Felizmente tenho uma certeza: Bion estará, em Ribeirão Preto, dentro e entre nós.  


 


[1] Schultz, LMJ (2010). Comentários sobre uma entrevista: Bion e o método. Alter-Revista de Estudos Psicodinâmicos 28: 141-154.


[2] Bion, WR (2016). Domesticando Pensamentos Selvagens. São Paulo: Blucher-Karnac, p.51.


 


 

Capítulo imaginário no livro ‘‘Tumbas De Ur.’’ de memórias do futuro. Sobre psicanálise selvagem e pensamentos selvagens.


ROSEMARY: Para mim, o selvagem é o bruto, como a carne crua, as verduras e legumes sem lavar, recém coletadas, os ovos com a casca suja de excrementos. O que acontece na preparação de um prato inventado com esses elementos, sem seguir nenhuma receita, antes de servir, sob a mesa da recepção, decorada, presentada e, as vezes, fria.


ALICE: Lamento a sua ignorância. Silvestre deriva do latim, SILVESTRIS, “relativo à floresta, ao mato”, de SILVA, “selva, floresta, mato”.


Que não foi domesticado ou cultivado pelo homem. Que não está refinado, educado ou cultivado.


ROSEMARY: Na preparação de uma receita, não há refinamento. O lugar pode parecer sujo, desordenado. As conversas dos empregados não são educadas nem delicadas, mas são verdadeiras, reais e pertinentes. Ali, todos têm vocações de psicanalistas, pelas observações agudas e perspicazes sobre seus patrões.


ROLAND: Os funcionários da corte praticam uma sábia “Psicanálise Selvagem”.


SHERLOC HOLMES: Entrar na rede de intrigas, falsidades e mentiras para descobrir fatos e evidências da realidade é uma tentação.


P.A: Não confundam a advertência de Freud, em 1910, sobre a Psicanálise Selvagem e o que eu trato de dizer com pensamentos selvagens. O adjetivo é igual, mas os conceitos são muito diferentes.


Nossa ciência é inefável, mas é preciso zelar pela precisão conceitual.


Freud nos alertou sobre o perigo de banalizar, simplificar ridiculamente nossa difícil tarefa, aplicando teorias e diagnósticos em forma selvagem; equivocações grosseiras.


A Psicanálise Selvagem nos adverte sobre as resistências e o ódio à nossa ciência-arte, entranhadas no inconsciente dos próprios profissionais que a exercem.


No lugar do tato e o contato, delicado e misterioso, com a mente do paciente, o profissional usa o martelo para acabar com o gelo, as resistências e os sintomas. O calor da relação ajudaria melhor a derreter o gelo.


O psicanalista é como o arqueólogo. Eles podem romper preciosidades. O tropismo criativo, a parte psicanalítica da personalidade, a preconcepção humana, as forças da vida, podem murchar.


Só os livros não sustentam a identidade analítica. As análises e reanálises pessoais, em certas personalidades com dons especiais, são os pilares fundamentais para afinar o instrumento do trabalho.


A má técnica pode se justificar com as racionalizações sofisticadas da moda que crescem como pragas, expressadas em linguagem articulada. Conceitos, usados como um arsenal de jargão, podem ter a função de distorcer a realidade do que sucede na relação analítica: intersubjetividade, enactment, campo analítico, plasticidade, criatividade, pictograma...


Mas, aquilo que importa, o desconhecido no paciente. pode ficar intocado. Ele tem o direito de SER paciente e cabe ao analista exercer suficientemente bem a sua função, na assimetria da relação. Muitas vezes o entretenimento da loucura de ambos, se perpetua  em iatrogênicos  ‘’análises intermináveis’’.


ROSEMARY:  E como alguém, ignorante, como eu, pode escolher um ANALISTA?


P.A: Ante a esfinge, a pergunta era: O que é o homem? Para a psicanálise a pergunta é: Quem é você? A sua pergunta revela sabedoria e o reconhecimento da sua ignorância que abre os caminhos do pensamento. Serás uma grande aliada de teu analista!!!


Para escolher um profissional, não te guie pelas condecorações, os títulos, os cargos. Eles podem te cegar com um falso brilho. Pertencer à uma instituição pode ser uma condição necessária, mas nunca suficiente. O establishment pode deformar, no lugar de formar um profissional.


Busca a pessoa no analista, seu SER. E recorda que a deterioração mental é muito frequente entre os profissionais PSI. Nosso trabalho é fascinante, mas altamente insalubre. É importante avaliar a cada momento as condições mentais do profissional, para que ele possa penetrar em águas profundas. Perceber a corrente do rio, como diria Heráclito, é importante. Nada é definitivo, eterno!!!


SACERDOTE: Homem, como te ocorreu esse nome ‘’Tumbas de Ur’’ para esse livro? Escutei falar de eternidade,...


HOMEM: A ideia de eternidade é perigosa; se usada fanaticamente, é mortal. A vitalidade dos pensamentos selvagens pode ser enterrada. Aos pensamentos extraviados se lhes dá um lugar: a tumba, onde são sepultados.


EU MESMO: Agora meu sonho é ir para Pasárgada[1], ou não para Ribeirão Preto – terra quente – cidade que me é familiar porque trabalhei com o Dr. José Américo Junqueira de Mattos, em Los Angeles. Hoje tenho a alegria de considera-lo membro de minha família profissional.


Um sonhador apaixonado, homem de coragem, que desbravou caminhos, brigou com o establishment, fundou, com outros colegas, a primeira Sociedade de Psicanálise no interior do estado de São Paulo, legitimou as análises condensadas em um país que tem o tamanho de um continente – e não de uma ilha – buscou pelo mundo, todas as minhas supervisões para estuda-las. Sua filha Gisèle de Mattos, hoje coordena um Grupo de Estudos na SBPSP com essa finalidade. O que é que esse grupo encontra nos meus comentários dessas sessões?


Como são os frutos das sementes plantadas?


Estou curioso!!!


Tenho a esperança de participar em Ribeirão Preto, de um encontro frutífero, com debate, discussão, confronto, aprendizagem, berço de novas ideés  mères!!!


Espero não ser enterrado pelas idealizações e a loucura dos supostos falsos seguidores na tumba da glória, como um Deus.


 


[1] Poema ‘‘Vou-me Embora pra Pasárgada’’, de Manuel Bandeira

ATITUDE PSICANÁLITICA


Procuro, no presente escrito, valer-me da minha trajetória como psicanalista; usarei esta dimensão para apontar como vejo os elementos que importam na minha teoria e prática.


Trata-se, pois, de uma atitude pessoal, única, que vai se desenvolvendo com o passar do exercício clínico e teórico em psicanálise, os quais estão intimamente ligados e interinfluenciáveis.


Proponho que o encontro dessa atitude psicanalítica é consequência de inúmeros fatores, quase que infinitos, dos quais vou me aproximando de alguns e me afastando de outros, que já foram próximos e úteis. Tentarei agora, descrever alguns deles, na medida em que minhas forças mentais o permitirem.


Pretendo realizar um ensaio, tal como descoberto por Montaigne (1533-1592), onde conclusões fortes e definitivas não estão presentes; o que escrevo espero que sirva como estímulo para o patrimônio psicanalítico de cada um de nós.


Faço isso porque, acima de tudo, a atitude psicanalítica é um todo em andamento, que didaticamente contém uma parte estável, central, que influencia e é influenciada continuamente por fatores ligeiros e leves que aparecem no dia a dia, quer na dimensão clínica e prática, quer nas teorias das quais me aproximo e tenho alguma compreensão; como disse, sempre em andamento. Ainda assim, há a dimensão estável e central, que no meu senso comum parece constante e à margem do dia a dia.


A teoria central que uso privilegia a experiência emocional presente no encontro psicanalítico e da qual decorrem concepções e compreensões até formarem uma teoria psicanalítica pessoal.


Sem sombra de dúvida, o autor que mais me influencia nos últimos trinta ou quarenta anos é BION, com sua extensa obra publicada, que vai sendo por mim transformada a cada aproximação que faço dela.


Penso que o centro de minha atitude clínica pode ser filiado à ideia de aprender com a experiência, que em livro, apareceu em 1962. De lá para cá penso haver um período de “lua de mel” com a teoria de aprender com a emoção presente, na qual a “experiência emocional presente” era o todo do trabalho clínico. Passado e futuro, bem como os fatos em si, compartilhados ou relatados, pouca importância apresentavam para o desenvolver de pensamento, que acontecia por acúmulo de elementos α, lugar de onde crescia o conhecimento.


A “lua de mel” noticiada acima durou muitos anos, mas, progressivamente, foi sendo infiltrada por elementos psicanalíticos outros, que estão em outra dimensão, que não a experiência emocional presente e “pura” do aprender com a experiência presente e só.


Esse novo conjunto deve necessariamente conter e englobar o aprender com a experiência emocional presente; deve, necessariamente, contê-la mas é mais complexo do que ela; abriga dimensões variadas, algumas das quais irei apresentar mais adiante.


Esse conjunto constitui um patrimônio, que cada um de nós nasce com parte dele, e que vai se desenvolvendo com o passar da experiência de vida e de psicanálise em particular.  Ele se incorpora à nossa atitude mental e influencia, poderosamente, a nossa aproximação do presente. O patrimônio citado oferece um ângulo novo a cada vez e que, no meu entender, esse novo é praticamente inconsciente. O patrimônio a que me refiro não está disponível para a minha consciência e para o meu raciocínio em especial. Não é para meu uso consciente mas está instalado e constitui minha personalidade, de onde decorre “quem eu sou”; melhor seria dizer “quem eu estou”, se me aproximo da teoria.


Uma decorrência estratégica e vital desse entendimento se manifesta na escolha atual em nossos Institutos de psicanálise. A cada dia, o interesse maior e central se encaminha para a personalidade do formando, que perdeu o paraíso de ser neutra ou resolvida e sem influência no que se vive; dessa proposta decorre que cada um de nós vê, de maneira única e pessoal o que é a vida; por isto prioriza e percebe como importante a clínica e teoria que “criamos”, e que vai constituir o patrimônio psicanalítico de cada um compartilhado na medida em que é publicado. A publicação ocorre de várias formas, uma delas acontecendo agora, por exemplo, através deste escrito que é intuído, percebido e examinado pelo outro.


Com o passar do tempo, vou me aproximando de uma proposta revolucionária, que está explicitada por Bion desde a década de sessenta, e que vai progressivamente sendo percebida: ela sinteticamente pode ser assim escrita hoje: suponho que a concepção de Bion de que o pensamento, o conhecimento consequente, se dá por uma emoção; a emoção como base do pensamento revoluciona e subverte a antiga concepção de que o pensamento se dá fora da área das emoções. Acredito que esta revolução não pode ser aceita de maneira pacífica e fácil; ela provoca retornos, minuto a minuto, à área do pensamento racional e só. Admitir a razão, a racionalidade como uma forma elaborada do pensar, está em andamento aos trancos e barrancos.


Abro agora uma divisão onde uma parte é falar sobre psicanálise, que é o que faço agora, e a outra parte, outra dimensão, é a que se refere a fazer psicanálise, viver psicanálise, que se dá essencialmente, ou exclusivamente, na psicanálise clínica, na sessão psicanalítica.


Hoje a psicopatologia do analisando, em decorrência dessa posição, perde força e essência, abrindo caminho para a psicanálise que se centra na experiência emocional presente, que depende clinicamente do ângulo, ou dimensão, ou viés, no qual me posiciono e valorizo, utilizando para isso meu patrimônio citado acima.


Cada um de nós, penso eu, em atividade clínica e teórica utilizará a dimensão de falar sobre psicanálise, fora do consultório psicanalítico; e vivendo e exercendo a dimensão de estar em psicanálise dentro dele. Nessas dimensões temos a condição favorável, de perceber o quão única e pessoal é nossa atitude. Para isso necessitamos, quer na clínica quer na dimensão teórica, de capacidade de suportar o que o outro vê e intui, na situação e que é necessariamente diferente do que vejo e intuo.


Chamo de respeito um elemento essencial para a psicanálise que se centra no aprender com a experiência emocional presente; pois se desrespeitamos o outro enquanto diferente de nós e se com isso ele deixa de ser uma pessoa, não é possível aprender com a experiência, pois certamente utilizaremos memória e desejo para caracterizar e nomear o que percebemos. Isto vale, nunca é demais lembrar, para mim e para o outro; vale para o par psicanalítico.


Loucura, burrice, psicopatia, psicose, neurose, regressão, transferência e contratransferência são nomes que são usados, com muita frequência para substituir respeito e compreensão diante do outro diferente de mim. Proponho que minha função psicanalítica não é esclarecer para o outro o “certo” ou “normal”, que está em mim. A atitude psicanalítica é participar da experiência no encontro psicanalítico em andamento.


As descrições clínicas mais frequentes que fazia antigamente, mas que, vez por outra, faço no presente com meus analisandos e que estão apoiadas em teorias de personalidade que se apoiam em certa psicopatologia compatível com as mesmas foram progressivamente ganhando uma compreensão de que elas são decorrentes do interesse e foco que emprego. Por assim dizer nascem do encontro para formar-se e robustecer-se. São, penso eu, consequência do entrechoque das duas personalidades ali presentes.


Acredito firmemente que hoje o analisando é visto por meio de minha atitude psicanalítica, a qual forma o meu patrimônio psicanalítico, sempre em mudança. É através desse patrimônio que cada um de nós intui, percebe e deduz as características mentais de quem está diante de nós.


Insisto que o analisando em contato com o analista será atraído para o que prevalece na mente do analista. Bion diz, por várias vezes, em sua obra, que a área de trabalho psicanalítico está onde se dá o conhecimento (K). É vedado ao analista, enquanto trabalha com a experiência emocional presente e possivelmente compartilhada com a analisando, viver e priorizar as dimensões pessoais de amor e ódio, pois estas não levam ao conhecimento emocional, por si mesmas.


Os institutos de psicanálise, em particular o de nossa Sociedade, na qual milito e influencio, oferecem ao analista dimensões variadas de aprendizado: análise didática, supervisões, seminários clínicos, cursos teóricos, além da convivência em grupo para a maioria das atividades. Espera-se, com isso, que cada um de nós mergulhe no ambiente de modo a construir uma atitude psicanalítica pessoal e em andamento, o que acontece a cada momento, inclusive, neste momento em que apresento este escrito, esperando que seja uma gota dessa atitude.


Cada um de nós, sem cessar, ativamente, vai colhendo alguns elementos dessa imensidão oferecida e vai formando sua própria concepção de psicanálise. Ela continuamente agrega fatores e descarta outros, já existentes, mas que perdem a atualidade; não se encontram mais em uso. O essencial e básico dessa construção é feito de modo inconsciente, não podendo, pois, ser objetivamente apresentado.


Na minha experiência levei muitos anos para que pudesse formular um conjunto dinâmico de elementos, que são o que percebo como centrais e essenciais, como patrimônio, e que me orientam na clínica e consequentemente também na teoria.


Apontarei apenas que o centro de meu interesse, quando estou psicanalista de acordo comigo mesmo, é o que chamo de experiência emocional, desejavelmente compartilhada, ao menos em parte, fator básico e essencial para aprender na experiência e desenvolver pensamentos que convivem sempre com elementos de “não pensamento”, que constituem o que chamo de função psicótica da personalidade.


A seguir menciono os trancos e solavancos que Bion e em seguida eu mesmo sofremos, cada um à sua maneira e com seu patrimônio, com o aparecimento da teoria das transformações; de funções que vão além do conhecimento; ou funções acontecendo diferentes da experiência emocional (K); elementos que por vezes são chamados o “sendo” na vida toda, mesmo antes do nascimento biológico; e de dimensões que vão além do tradicional campo de experiência emocional presente, base para o pensamento e função α. Inserem-se aí as ideias de pensamento sem pensador, de pensamentos selvagens, que procuramos domesticar; outras funções que estão em área nem consciente, nem inconsciente, etc. etc. Proponho que estes agregados à teoria da experiência emocional presente, decorrem das dificuldades que vamos apurando na clínica, as quais restringem e por vezes impedem o ato de fé; estes novos elementos acrescentados procuram ser uma complementação da teoria das emoções anteriormente apresentada; procuram supri-la de novas dimensões.


Acrescentei, dentro dessa atitude psicanalítica, o ato de fé que me permite estar disponível para a emoção vivida. O ato de fé cria uma “força” para me manter no que percebo do presente vivido.


Creio que agora posso esperar as consequências do que apresento e se for o caso, comentar algum ponto de interesse, usando meu ponto de vista da ocasião.


Aponto como estímulos imediatos para o que escrevo aqui, um texto meu inédito, preparado para a aula inaugural de nosso Instituto em 2017. Além dele, o texto de W. R. Bion “Domesticando pensamentos selvagens”, traduzido por Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho. 

O CONHECIDO, O DESCONHECIDO E O INCOGNOSCÍVEL


Julio Frochtengarten[1]


Avançamos devagar em nossos conhecimentos – esta é a sensação que se nos impõe de imediato quando olhamos de relance os nossos anos vividos. Mas uma reflexão ainda que rápida, uma espiada breve em um livro da história de qualquer ciência, logo relativiza esta noção e, então, percebemos alguns ganhos alcançados, pequenos aprendizados, mudanças na forma de ver as coisas do mundo. Nossas curtas existências frequentemente não nos permitem dimensionar nosso próprio avanço, seja em termos de conhecimento, capacidade criativa ou originalidade.


O conhecimento avança sempre à custa de romper limites que se impõem por já não dar conta das realidades que se apresentam. Psicanálise também tem se feito assim, na clínica e nas teorias.


Nas últimas décadas, a ampliação da noção de um domínio mental que se estende para além do consciente e do inconsciente reprimido, e das estruturas id-ego-superego, tem alargado o campo de atuação possível no dia-a-dia do psicanalista, transformando as possibilidades do trabalho clínico e a produção teórica. Riqueza, criatividade e ideias novas são os ganhos que percebo com essas expansões. Apesar delas, continuamos a usar o mesmo termo "mente", mas é apenas uma forma de nos referirmos a algo que desconhecemos. Qualquer que seja a concepção que tenhamos do que significa mente, é certo que sentimentos e outras formulações – ideias, imaginações, sonhos – ganham expressão a partir de algo incognoscível.


Nossos conceitos psicanalíticos são uma forma de organização do que se experimenta na clínica. Eles dão ordem e coerência à realidade psíquica, sentido e significado a ela; sedimentam o que se sabe e supõe a respeito da mente e se fazem acompanhar da sensação de coesão que nos permite lidar com o que vai surgindo no âmbito do conhecimento. Já, o abandonar o que é conhecido, me colocar receptivo ao que não sei, é fruto de um esforço contra o hábito e a compreensão. Mas a realidade desconhecida – e tantas vezes incognoscível – está aí: há que se ter olhos para ver, ouvidos para ouvir, insaturação para intuir, receptividade para acolher. É preciso disciplina para nos conduzirmos à semelhança do que Bion falou de seu próprio trabalho: “o traço dominante de uma sessão é a personalidade desconhecida, e não o que o analisando ou o analista pensa que conhece” (Bion, 1970/1973, p. 96). Formulações finitas nascem dessa matéria bruta, a desconhecida mente primordial, “o nascente mundo de profundas, escuras águas; arrebatado ao infinito vazio e sem forma". (Milton, J, apud Bion, W. R. Transformações, 1965/2004, p. 176).


Esta é uma dimensão da mente que passa a ser conhecida e que convive com outras, conhecidas ou não. A interpenetração e simultaneidade de consciente e inconsciente, do sonho na vida psíquica de vigília; a presença de fantasias construídas na infância em todos os aspectos da vida atual – são marcas da simultaneidade entre diversas dimensões da mente.


Reconheço que, tendo adotado estas extensões – a noção de um inconsciente infinito e a dimensão multidimensional do funcionamento psíquico –, somos tomados por perturbação pela perda de conhecidas referências, tanto as próprias como as do grupo psicanalítico maior a que pertencemos. A interpretação, nosso instrumento por excelência, se mostra em seu limite de alcance e possibilidade. Não só tornar o inconsciente em consciente, não só o "onde era id, será ego", não só o atribuir de significados. Outro instrumento para a atuação do analista na sessão precisa ser desenvolvido e caracterizado: uma atitude que seja receptiva – ou até mesmo favoreça – que possa fazer brotar na sessão, no trabalho a dois, o que ainda não se conhece e que "urge por existir".


O interesse pelo que não sei é uma postura clínica do analista experiente que o dispõe para receptividade e submissão ao infinito da experiência. Por sua vez, as apreensões psíquicas que daí decorrem são bases para que possa prosseguir um trabalho com o analisando, mas não esgotam o que não se sabe: ao contrário, ampliam o desconhecido.


A caracterização de uma atitude receptiva para com o que não se sabe tem sido formulada mais pela negatividade do que pela revelação assertiva de suas qualidades. Freud propôs que o analista precisaria “cegar-se artificialmente”; Bion (1970/1973), que o analista precisaria trabalhar sem memória, sem desejo e sem compreensão.


Explorando alguns elementos afirmativos, e relacionados com tal atitude na prática clínica, atino com os seguintes:



  1. Adoção de algumas poucas e amplas teorias psicanalíticas, a funcionar como um balizamento da experiência, tomando parte como mediações na submissão ao infinito e favorecendo a evolução de sensações e emoções para pensamentos.

  2. Emprego pelo analista de Linguagem de Êxito (Bion, 1970), na medida em que uma formulação certeira – ainda que rara – pode, provocando sobressalto, evidenciar a imprevisibilidade e abrir para um enriquecimento insuspeitado da experiência imediata (Frochtengarten, 2015).

  3. Considero, como modelo para pensar a função analítica frente à mente multidimensional, a flâneurie como protótipo do que se pode chamar de observação na era moderna. Walter Benjamin, o filósofo da Modernidade, apoiando-se na poesia de Baudelaire, se serve deste modelo para aludir a alguém que caminha, aparentemente distraído, mas atento aos detalhes da cidade e seus habitantes, procurando depreender os sentimentos e intenções que os movem.


Penso que este modelo atende melhor ao vértice psicanalítico quando comparado ao da investigação, pois considera as dimensões incognoscíveis da mente e não o perseguir vestígios sustentados por conhecimentos já adquiridos.  A flâneurie tem, como fundamento radical, aquilo que não se sabe, permitindo que nos aproximemos da multiplicidade, do efêmero, da beleza do acidental, instantâneo e transitório (Frochtengarten, 2016).



  1. Acolhermos eventuais Pensamentos Selvagens (Bion, 1997/2016) que brotem, seguindo-os como um flâneur e tomando-os como fiapos de pensamentos, poderá contribuir para a realização de nossa paráfrase edípica - “onde era ignorância, será conhecimento”?


Talvez haja um paradoxo ditado pela distância intransponível entre o que é possível conhecer, estando imersos na experiência, e a essência da experiência – que, por ser incognoscível, não se sabe e nunca se saberá. Poderá o modelo do flanar ingênuo,  “sem memória, desejo ou compreensão”, através de Pensamentos Selvagens, nos acudir e amortecer esta distância?


 


 


Referências:


Bion, W. R. (2004). Transformações. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1965).


Bion, W. R. (1973). Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1970), 1ª edição.


Bion, W. R. (1991) Uma memória do futuro. São Paulo: Martins Fontes; Rio de Janeiro: Imago, 1991


Bion, W. R. (2000) Cogitações. SP, Imago Editora, 2000.


Bion, W. R. (2016). Domesticando Pensamentos Selvagens. São Paulo: Blucher-Karnac. (Trabalho original publicado em 1997).


Frochtengarten, J. (2015) Nos limites da representação: comunhão, fruição estética e prazer autêntico. Trabalho apresentado em mesa redonda, no XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise, outubro de 2015, SP.


Frochtengarten, J. (2015) Comentários ao trabalho “Wilfred Bion e James Joyce: um encontro estético” de Celso A. V. Camargo. Trabalho e Comentários apresentados em Reunião Científica da SBPSP em 25 de fevereiro de 2016.


 


[1] Membro Efetivo e Analista Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


  juliofro@uol.com.br


 

Domando[1] emoções selvagens[2]


Cecil José Rezze[3]


 


O “Cambridge International Dictionary of English” registra: Tame v(T) *It’s hard to tame a tiger. * He’ll need to tame (=control) his temper if he wants to succeed.


Do verbo “to tame” traduzi livremente por domando, que corresponde a duas acepções, pelo menos, conforme as referências acima. A primeira considera domando um animal selvagem tomando o título do livro de  Bion – Taming wild thoughts – no sentido de domar uma força animal como a de um tigre. Concretizando, veremos a proposta de um risco fatual de se enfrentar um pensamento selvagem, como equivalente a um tigre, algo de selvagem no animal humano, que pode colocar nossa vida em risco. A segunda acepção considera os sentimentos que precisam ser domados (controlados) e a igualmente situação perigosa de lidar com a alma, espírito ou mente quando as emoções são selvagens.


Quanto aos pensamentos selvagens, escolhi um trecho do livro “Seminari Italiani”[4], (1983, p.77) que vem a ser uma pergunta que um dos participantes faz justamente sobre o tema. Creio que a pergunta e o que se segue permitem a realização do conceito.


“A abertura do discurso de ontem do Dr. Bion me pareceu muito bonita como imagem; poderíamos ver os pensamentos selvagens passeando pela sala; mas depois eu me perguntei: estes pensamentos são uma emanação do espírito santo, ou se não, o que está nos dizendo o Dr. Bion? Esperei então que nos resolvesse o mistério do início do evangelho de São João, que nos dissesse onde estava o verbum e que nos ajudasse a entender como ele se havia feito carne; mas todo o resto do discurso não me ajudou muito nisso e, sobretudo, a longa e meticulosa investigação sobre a trabalhosa aquisição da linguagem pelo homem, a partir do grunhido, me desorientou. Pareceu-me contraditório aquele início: em suma, Deus, ou o que seja, grunhe ou fala?”


Um outro participante tenta falar, mas fica a meio, porque “há muitos ruídos na sala”. Bion a seguir começa a responder e assinala algo ligado a “tanto barulho na sala” (Rezze, (2006, 2009).


Podemos considerar a fala do participante descrito como expressando um pensamento selvagem. Também podemos levar em conta que em “Aprender com a experiência”, Bion considera o conhecimento como fazendo parte dos vínculos emocionais como amor e ódio e, portanto, o pensamento fará parte do vínculo conhecimento, embora não fique claro a que corresponde a emoção do conhecer ou do pensar.


Se considerarmos a indagação exasperada que surge no grupo com a consequente fragmentação momentânea do mesmo, podemos supô-lo operando não como um grupo de trabalho, mas sob o pressuposto  de luta e fuga (Bion, 1970).


Quanto ao vínculo operante na situação escolhida, podemos considerar  que há uma  fragmentação do vínculo conhecimento e o surgimento de intensas vivências de ameaça, violência, agressividade e atuação franca  determinando perplexidade e confusão entre os elementos do grupo.


Então, podemos considerar o episódio como tendo havido a intervenção de um pensamento selvagem, mas creio que o determinante foi a emoção do participante, que sentiu a intervenção de Bion como um pensamento selvagem, avassalador, ameaçador, violento, agressivo, destrutivo, determinando uma resposta violenta que paralisou o grupo de trabalho. Não houve propriamente o tempo para haver um pensamento e sim para a reação emocional, embora a sua colocação em termos verbais tivessem consistência e clareza.


Bion, principalmente em suas supervisões, encarece a importância do pensamento selvagem, possivelmente como fonte original de criatividade, e convida os presentes a participarem externando seus pensamentos selvagens, pelo menos como eu creio que ocorria, embora, a meu ver, raramente o seu convite surtisse o efeito desejado, talvez pelo que estou considerando, ou seja, a emoção selvagem. Suponho que em situações com estas, em que se está em contato com o grande mestre - Bion -, emoções violentas como as do temor reverencial, o receio de se intervir com sentimentos e ideias que possam ser consideradas como insignificantes, levam os presentes a considerarem sua participação, como o que, na terminologia de Bion, seria o temor à mudança catastrófica.


Considero que na Psicanálise houve um magnífico desenvolvimento de teorias sobre a personalidade, com Freud, Klein, outros autores e seus continuadores. Em Bion temos uma original teoria do pensamento, que subverte os conhecimentos tradicionais, que nos coloca sob o impacto de pensar os pensamentos, desenvolvendo um aparelho psíquico para fazê-lo. Os autores partem da  emoção, Bion particularmente com o conceito insaturado de experiência emocional, mantendo um viés científico da psicanálise, possivelmente se originando com as teorias de Locke, Hume e contemporâneos como Schlick, .........


No entanto, devo considerar que não dispomos de uma teoria que trate da emoção e do sentimento, embora todos autores a eles se refiram, como por exemplo, Bion que propõe uma Grade (Grid) em emoções, porém em seu livro “Elementos de Psicanálise” (Bion, 1966), que possui vinte capítulos, somente em dois ele propõe que a grade em conhecimento se preste às emoções, porém de forma tênue,  se considerarmos a consistência dada ao pensamento quando trata do conhecimento.


Tenho tentado pensar  a respeito e verifico que a emoção ou sentimento, que é comum ser tratado na psicanálise, é a dor, Bion acentuando que esta é imprescindível à psicanálise, não porque haja qualquer virtude em viver a dor, mas porque ela é inerente ao ser humano. Subvertendo esta ordem, sem contradizê-la, tenho acentuado a imprescindibilidade do prazer, na especificidade do prazer autêntico (Rezze, 2011, 2012, 2014, 2015 e 2016, Rezze e Braga, 2016)


 


Bibliografia


Bion W. R. (1966). Elementos de psicanálise. Rio De Janeiro: Zahar Editores. (Trabalho original publicado em 1962).


---- (1970) Experiências com Grupos. Rio de Janeiro. Imago.


---- (1983). Seminari italiani. Roma: Edizioni Borla.


---- (1997) Taming wild thoughts. Edited by Francesca Bion. London. Karnac Books.


Rezze, C. J. (2006) Aprender com a experiência emocional: e depois? Turbulência! Rev. Bras. Psicanál, v.39, n. 4, p. 133-47.


---- (2009) Turbulências: do aprender com a experiência emocional ao pensamento selvagem. In: Rezze, Cecil José, org; Marra, Evelise de Souza, org; Petricciani, Marta, org. Psicanálise: Bion: transformações e desdobramentos, p. 13-29. São Paulo : Casa do Psicólogo.


---- (2011) Limites: prazer e realidade. Objetivos da análise: prazer possível? Realidade possível?  XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise. Ribeirão Preto, setembro 2011.


---- (2012) Prazer autêntico: mudança de paradigma? Painel Prazer Autêntico: Prazer – Amor – Psicanálise? 29o Congresso Latino-Americano de Psicanálise. São Paulo, 10-13 de outubro, 2012.


---- (2012) Prazer autêntico: mudança de paradigma? Painel: Experiência emocional, prazer autêntico e estados de terror, 29o Congresso Latino-Americano de Psicanálise. São Paulo, 10-13 de outubro, 2012.


----  (2014) Prazer autêntico - o belo -  estesia .Idéias embrionárias. Apresentado em reunião científica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto em 8 de agosto de 2014.


---- (2015, 2016) Prazer autêntico: a fratura.  Apresentado no XXV Congresso Brasileiro de Psicanálise, 28/10/2015. São Paulo. Trabalho apresentado na SBPSP em 13 de fevereiro de 2016 em Painel intitulado "Além dos limites da representação: comunhão, fruição estética e prazer autêntico".


Rezze, C. J. E e Braga, J. C. (2016) Authentic pleasure capture of moments of unison with reality. Apresentado no Congresso de Los Angeles e a ser publicado no livro "Everything we know nothing about: explorations in Bion's 'O' pela Karnac.


 


[1] No texto  “Taming wild thoughts”, o verbo usado é “to domesticate” (Bion, 1997).


[2] Apresentado em Conversas Psicanalíticas em 24 de junho de 2017


[3] Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutor em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.


[4] Tradução de Renzo Birolini. 

O GATO DOMESTICO E O GRANDE FELINO


Júlio César Conte (Porto Alegre)


Acordei, era noite e não sabia dizer se o que me assombrara fora um sonho, uma alucinação ou outra coisa qualquer. O pensamento continha algo de sonho, de alucinação e alguma outra coisa que não conseguir discriminar. O pensamento que me despertou foi o seguinte:  o gato doméstico sonhava em ser um grande felino.


Abri os olhos e era madrugada. Estava há meses preocupado em publicar alguma coisa sobre Pensamentos Selvagens, mas até então nada me ocorrera. Deixei a preguiça aproveitar a cama enquanto lembrava de uma experiência um tanto obscura feita com gatos. Não conseguia identificar a fonte, mas sabia ser de uma investigação sobre a fisiologia dos sonhos na qual cientistas faziam ablação em partes do cérebro responsáveis pela inibição da resposta motora. A consequência era que, ao suspender a inibição, deixava o corpo livre para reagir aos estímulos oníricos como se o sujeito da experiência estivesse acordado. Resultando que estes gatos domésticos, vitimas do cruel experimento, reagiam ao sono REM repetindo movimentos dos grandes felinos durante a caça. Aproximações sorrateira, corridas, saltos e toda a sorte de repertório de caça utilizado pelos leões, tigres, pumas e leopardos.


Nas brumas do despertar, vislumbrei algo que buscava. Através de um pensamento pictórico encontrei uma espécie de representação/sentido/significado de um pensamento selvagem. Pode-se imaginar que existam pensamentos domesticados, estabelecidos, reconhecíveis e solidificados, portadores de cartões de identificação, com nome, endereço e CPF do autor. Do mesmo modo nos defrontamos com pensamentos familiares, mas com propriedade desconhecida para o pensador e, mais além, pensamentos selvagens nos quais se produzia a sensação de estar em terreno primitivo, violento e original.


Cada pensamento domesticado estaria envolto numa capa calcificada, rígida, mas que se pudéssemos avançar sobre a fibrose, os clichês, ossificação e o estabelecido, correremos o risco de encontrar, no cerne do ser, o infinito profundo do pensamento. Envoltos na nevoa da aurora, nos depararíamos com o grande felino, rugir, frente a frente com espanto e surpresa. Dentro do pensamento domesticado repousa o indomesticável. É notória a luta de Bion contra o satânico jargonismo e os clichês mentais. O gato pode ser um clichê, mas por trás dos clichês há uma verdade inexorável que foi tornada conhecida, palatável, aceitável e domesticada. Do pensamento inserido nas narrativas dos nossos pacientes, no dia-a-dia do social, na aparente banalidade da vida cotidiana, foi retirado a violência primitiva restando depurado e pasteurizado algo institucionalmente aceito para grande consumo. A poesia pode se deteriorar no uso e a repetição ao mesmo tempo que, popularizada, torna-se vulgar. Como se pudéssemos de uma ideia extrair o seu veneno como café sem cafeína, cerveja sem álcool. Tira-se aquilo que faria mal, o excesso sonegando aquilo que nos acorda, nos desperta, nos amanhece.


Nesta perspectiva, talvez, o pensamento selvagem não seja um elemento original em falta no mercado, mas uma invariante, uma constante clandestina que sobrevive em cada afirmação. E que, ao observador, se habilita reconhecer tais pensamento na medida que nos inserimos e nos e implicamos na verdade da transferência. Em busca de uma psicanalise implicada em oposição a explicada. O pensamento envolvido sobrevive as escaramuças do autoritarismo, do discurso institucional, dos clichês e do lugar comum. No volume I da Memória do Futuro Bion se pergunta se a intuição psicanalítica não provê uma reserva para os asnos selvagens, onde se vai achar um zoológico para preservar as espécies?


Bion sustentou, as palavras servem para confundir, mas também podem comunicar, embora involuntariamente. Revelaria então o selvagem do pensamento. Barthes diz que o sujeito ao falar não se comunica, mas se expõe.


É o que eu faço aqui.


O vinculo, a reverie e a função alfa derivam de uma capacidade de receber o selvagem da exposição. Tomar contato exatamente aquilo que faz sentido, nos une e se revela clandestino em sua origem indomesticável. A essência do pensamento.


Expus para vocês um fragmento de um sonho, alucinação ou outra coisa, porque penso que os pensamentos selvagens se conectam com o nosso desconhecido. O mesmo que mergulha no umbigo dos sonhos que nos habita. E que não respeitam outra língua que esta.

“Wild Thoughts:  A Dream and Follow Up”


by Avedis Panajian, Ph.D


In a community, everything was ruined and was an amazing scene of change and destruction. It was a very colorful destruction, and I knew I had some role in it. There were many people around, some of whom I recognized from my childhood. In the midst of all the destruction, I began talking to them and said, "not to worry, we can still cook eggs" I said this but did not see any eggs. While we talked, we were looking and walking among stunning artistic ruins, and there was a lot of yellow liquid all over the ground. The slippery substance was splattered everywhere and had a consistency like egg yolks. I started lifting and putting pieces of the ruins from one place to another. Again I noticed just how widespread the yellow liquid was: it was staggering to me. The whole scene looked like a painting of a landscape in destruction, a beautiful piece of art in ruins. The people and I continued walking together and none of us were worried. I then told a few of them, "now we will wait. When it is ready it will come to us and then we will write, create, make. When it is ready." I knew they understood what I meant: they grasped that my words had to do with the art of timing. I felt I was a gentle director or a community leader for them, with nothing in me except the feeling of groundedness that follows creation. 


Now, as I write this, this last moment in my dream seemed a perfect one in which to die. But if I had, I would have not known the dream or my non-flamingo mind, or my son that I also miss. These were some of my thoughts at first, then a few more followed. A beautiful nothingness, or cow shit coming out of me as fertilizer. A landscape and a mind with a million pounds of slippery yellow stuff in it. I was arranging nothing to nothing, but the timing was key, as was the yellow formlessness of the liquid. I now feel I will save this cow shit. I am on a liminal journey into a new nothing, between journeys, waiting in a formless form with order but without safety. Full of imagination without images that mean anything. I am waiting, patiently and calmly, and am enjoying the aesthetic formless form that came to me with no meaning, except the message that something was going to burst forth from me. I am looking forward to it.”   


Soon after I wrote this dream, I was dissatisfied with what I had written. Being dissatisfied in telling and writing wild thoughts allows me to open up to a fuzzy horizon in my dreams that makes an impression on me that resists verbalization. Once I write about wild thoughts, something freezes in me and is lost. Ironically, being aware of such a loss allows me to see a new horizon and a new beyond where wild thoughts become possible again. I am able to approximate the sense of the beyond through which images, colors, touch, rhythm, music all became possible as aspects of my imagination.


My telling and writing of the dream gives the erroneous impression that my experience of it was contained. In writing it, I was trying to hold and contain the yellow yoke-like substance that had no form and kept slipping from me. It’s formlessness was extremely painful to perceive, and I was anxious that it was going to disappear from me. I was anxious not because of my experience in the dream, but because of the elusiveness of the beyond. In writing about it, I was trying to figure out and grasp the yellow liquid and the entire abandoned landscape, but it was not possible. Whenever I tell and write about my experience of the beyond, the immediacy of it is lost. Words create a wound, and always create a distance from the immediacy of my experience.


The anxiety and the fear I felt about the dream was also partly due to its imaginal possibilities. It was my attempts to both deny and face these possibilities that led me to anxiety and fear. I did not feel these feelings in the dream: it was only weeks later as I was recalling it that these feelings came upon me. Each time I attempted to revisit the dream, what I perceived in it reignited these feelings in me.


Wild thoughts offer a journey of possibilities, but writing and elaborating about the possibilities is a way of deceiving oneself about these potentials. The vague, the ambiguous, and the inarticulate need to have a significant place in our psychic life.  There was so much that resisted articulation of my dream.  


The imaginal that is perceivable through the beyond and generative of our wild thoughts requires respect. It also needs to be approached with a pre-cognitive and pre-perceptive attitude. In the dream, I was telling the people to “wait and when it is ready, it will come to us.”  Anticipating my temporary feelings of groundedness (and anticipating their dissolution) led me to wish to die so that my death would make permanent the transient nature of such powerful feelings.


In crossing, and in between, there is timelessness and suspension. One is neither on one side nor on the other. I feel the symbolism of birth and rebirth is strong in this space. Being in between destroys continuity and cohesion, and our need for form and structure in the midst of this blinds us to the anxiety and dread that such a state evokes. The negation of our need for articulation and our capacity to welcome paradoxes and ambiguity allow the possibility of birth and rebirth.  


The risk of imaginative narratives and images is that they can conceal gaps, disjunctions, and the nonexistence of objects. The fragmented body is mainly revealed in dreams. Imagination tries to avoid disjunctions and unarticulated realities, while memory protects us from overwhelming perceptions. Memory also plays a role in delusional unity. For instance, a dream where there are childhood friends conceals the intensity of psychic pain that might otherwise be perceived the dream.  

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